‘Adolo’ o
vovô!
(Dedicado aos meus
netos)
“Dizem
que quando Deus tem
compaixão dos velhos,
manda-lhes netos.”
(Anônimo)
“Uma Avó é uma Mãe
maravilhosa com um
‘monte’ de prática. Um
Avô é um velho por fora
e um jovem por dentro.” Joy
Hargrove.
A netinha caçula, aos
três anos e sete meses
de idade, chega à nossa
casa, não encontra o
vovô, após buscar-me por
alguns cômodos.
Ainda à minha procura,
pediu à vovó que abrisse
a porta da biblioteca –
onde cultivo a amizade
com os livros – e aqui
também não estava eu.
Informada de que fora
caminhar, no exercício
periódico para preservar
a saúde física,
surpreendeu a vovó,
comentando:
– ‘Adolo’ o vovô!
Instada pela própria mãe
a dizer que também
‘adolava’ a vovó, olhava
para o lado e
cantarolava: hã! hã! hã!
Como a dizer, esta é
outra história!
-.-
Recentemente, lembrei-a
do fato, para
explicar-lhe o que é
afinidade e que pode ser
grande por alguém
especial, nem sempre da
família; e que isso não
exclui o amor pelas
demais pessoas, ou a
afinidade por tantas
outras, em graus
variados.
Desde pequenina,
manifestou enorme
carinho pelo primo João
Eduardo – fato a que ele
corresponde
atenciosamente, com
doçura e abraços. E um
tanto pelo tio Stanley,
que a paparica sempre!
Concordou plenamente.
Perguntei a ela se
gostava também dos dois
irmãos e do outro primo.
E ela, pressurosamente,
meneou a cabeça
afirmativamente. Ao que
lhe retruquei:
– Mas do Dudu você gosta
mais, não é?
Em resposta, o gesto
afirmativo e o sorriso
maroto revelam o que
sente por ele.
Disse-lhe que não se
preocupasse, eis que
esse é o sentimento
nobre da afinidade, que
certamente terá vida
afora, com mais pessoas!
-.-
Aqui somos dois avós a
apreciar as
personalidades e os
precoces talentos dos
cinco netos! São
amorosos e cordiais.
Conquistaram-nos para
sempre!
Todos eles apreciam a
boa música e tocam
instrumentos musicais:
– O Saulo, além do
piano, executa o violão
e tira som de inúmeros
outros instrumentos
(flauta, violoncelo,
entre outros). Estuda os
idiomas: alemão e
japonês.
Era aluno numa escola de
música e substituiu
colega percussionista. E
se houve tão bem que o
Professor lhe deu bolsa
de alguns meses, para
aperfeiçoar-se.
Compõe músicas eruditas
e populares; executa
aquelas ao piano e
estas, ao violão,
cantando com sua bela
voz.
Hoje, cursa o terceiro
ano de piano na
Universidade Federal de
Goiás; e canta, como
baixo, nos coros das
Orquestras Sinfônicas do
Estado de Goiás e da
Prefeitura de Goiânia.
Alguns professores
recomendam a ele
dedicar-se ao canto
lírico, por lhe
apreciarem a voz e a
facilidade em aprender
canções em vários
idiomas.
Ao concluir o curso de
piano, migrará para o de
Canto.
– O Estêvão toca flauta;
dedica-se ainda ao
violão. E é leitor
voraz!
– O João Eduardo também
compõe peças clássicas e
as executa ao piano –
tanto as próprias quanto
outras composições (Le
Lac de Come, por
exemplo)!
– O Guilherme iniciou-se
ao violoncelo e hoje
aprende a tocar o
violão.
– A Clarissa – pasmem! a
caçula e única menina do
grupo, prefere a
bateria; desenha muito
bem e faz animações.
Acompanha o próprio pai
ao violão em várias
canções (das quais,
prefiro Edelweiss).
À exceção do Saulo, o
tempo é escasso para os
demais dedicarem-se a
essas atividades, mas
sempre que podem a elas
retornam.
-.-
Aos três anos, após o
almoço, a pequena
Clarissa pediu-me que
passasse ‘filminho’ para
ela assistir.
Buscando afastá-la por
algum tempo desse
‘vício’, disse-lhe que
aguardasse um pouco.
Depois, iria atendê-la!
Da televisão passamos
para o computador, mas,
entre a primeira e este
último, apreciamos belos
espetáculos.
Vimos e ouvimos o som da
chuva que descia
torrencial e mansamente,
quase
perpendicularmente.
Observamos com prazer
essa bela manifestação
da natureza e as árvores
ao fundo, além de um que
outro pássaro que por lá
voava, a buscar refúgio.
Sentados, lado a lado,
ficamos bom tempo
admirando a fascinante
beleza desse espetáculo
natural, nem sempre
observado por todos nós.
Ambos gostamos de música
e de dança e, nas
circunstâncias, veio-me
à mente o filme ‘Cantando
na Chuva’, elo de
transição entre o cinema
mudo e o falado –
musical de 1952, com
Gene Kelly e Debbie
Reynolds, dirigido por
Stanley Donen.
A seguir, no computador,
assistimos a esse filme
– belíssima obra da Arte
humana. Na parte da
canção, vimos e revimos
essa obra-prima.
Daí, a memória
dirigiu-me para a música
do filme ‘Zorba, o
Grego’ – de 1964,
com Anthony Quinn e Alan
Bates, dirigido por
Michael Cacoyannis –,
que assistimos a seguir!
No dia seguinte,
convidei-a para ver e
ouvir a disputa entre um
jovem autista, a tocar
banjo e integrante do
filme ‘Amargo
Regresso’, com um
violão. Esse registro
belíssimo da Arte das
Artes foi o que ficou
dessa película. E foi
acontecimento que se deu
casualmente, pois não
estava em nosso roteiro.
Vimos também outras
versões da música do
filme ‘Zorba, o
Grego’.
Confessou-me que estava
feliz!
Certamente ela os verá
na íntegra, no futuro!
Surpreende-me vê-la, tão
jovem ainda, com
sensibilidade para
sentir, em silêncio, a
beleza dessas
extraordinárias
expressões das Artes!
E sabe ouvir atenta e
concentradamente! Se
fazemos observações – e
eu as faço, nem sempre
oportunas, reconheço! –,
ela, atenciosa, sem uma
palavra, com um gesto,
concorda, ou não,
meneando a cabeça, sem
perder o foco.
Lições que preciso
aprender! Sobretudo
essa, da Arte de Ouvir!
-.-
Deixo para os netos,
nestes breves registros,
o carinho do vovô que os
ama e admira,
enternecidamente!
Sentimentos esses
compartilhados pela
vovó, por quem
manifestam imensa
ternura e que os atende
em seus pratos
preferidos!
-.-
Leiam a bela crônica de
Rachel de Queiroz: A
Arte de ser Avó, para
sentirem quão importante
é chegar à condição de
avós!
-.-
Atualmente há outros
vícios tão ou mais
arraigados do que
tiririca: o telefone
celular e o computador;
que, se mal utilizados,
geram dependência e
enfermidades.
Além disso – o que é
mais grave! –, afastam
crianças e jovens das
indispensáveis leituras
e da concentração que
estas requerem; bem
assim da interpretação
de textos e do
aprendizado em geral.
São os chamados
analfabetos funcionais,
por não compreenderem o
conteúdo de quaisquer
páginas escritas, além
de não saberem redigir e
ignoram as quatro
operações, após
frequentarem quatro anos
do “ensino” público!
Para o aprendizado da
redação, ler é
fundamental,
especialmente autores
clássicos.
Hoje, abreviam as
palavras, deformando-as;
e, por não estudarem
nosso idioma, não se
comunicam com clareza,
pela pobreza de seus
vocabulários!
Essas deturpações
aumentam o desemprego,
pois há inúmeras vagas
que não têm competência
para ocupar.
Adotam vícios de
linguagem horrorosos –
que meus escrúpulos
recusam grafá-los, ou
repeti-los verbalmente!
Não soam eufonicamente a
ouvidos que estudam e
amam a belíssima Língua
Portuguesa!
Mas admito que os
recursos da tecnologia
das mídias sociais –
favorecidos pela
Internet – são
fundamentais para os
tempos atuais e futuros,
seja pelo telefone
celular, seja pelo
computador, seja pelos
extraordinários recursos
da astronáutica, das
pesquisas médicas e de
tantos outros, como a
televisão, as ‘lives’, e
outros mais!
É preciso repensar a
educação – cujo nível
caiu abaixo da crítica!
–, para que a leitura e
a interpretação de
textos sejam cultivadas,
ainda que pelos meios
virtuais; e os jovens
sejam preparados para o
trabalho em qualquer
ramo do conhecimento
humano.
A geração de que faço
parte – com raras
exceções – aprecia
livros impressos, que
permitem serem
conduzidos a toda parte,
além de ensejar
sublinhar as partes que
nos tocam!