Internacional
por Jorge Gomes

Ano 18 - N° 908 - 2 de Fevereiro de 2025

 

Desencarnação: problemas e soluções
 


Jorge Gomes

A viagem de retorno à vida espiritual é inevitável.
Há quem creia que

nada se passa depois da morte do corpo físico, subsistem os que têm dúvidas e, por fim, há quem estude e tenha uma ideia da problemática decorrente do fenómeno da desencarnação.

A primeira e indispensável pergunta de quem começa a abordar o assunto é esta: a sede da consciência reside mesmo no cérebro?

Muitas pessoas acreditam que sim. Aparentemente, danificar o cérebro leva à morte do corpo material.

Ainda assim, nem sempre é esse o resultado, como ocorreu com o famoso caso de Phineas Gage, nos Estados Unidos, no século XIX: um trabalhador ferroviário de 25 anos sofreu um acidente e ficou com uma barra de ferro a atravessar-lhe a cabeça, destruindo boa parte do lobo frontal esquerdo. Ao contrário das expectativas recuperou, mas a personalidade afável que tinha alterou-se: exteriorizava com alguma frequência estados de irritabilidade que não lhe permitiram arranjar trabalho, até que passado um par de anos normalizou e tornou-se cocheiro de diligências (carruagens puxadas a cavalo que antecederam os primeiros autocarros).

De qualquer modo, a interpretação simplista, de que sem cérebro não há vida, não satisfaz os factos.

Recordo-me da minha avó que, no século passado, idosa quanto baste, quando um locutor da televisão dizia bom-dia, atenciosa, respondia-lhe sempre. Acreditava que ele a estava a ver como ela o via, e seria má educação silenciar. Expliquei-lhe algumas vezes que o senhor da TV não nos estava a ver e não nos ouvia. Ela nunca acreditou em mim, nem tão pouco me ofereceu o benefício da dúvida.

O cérebro do corpo físico, como elucida numa argumentação inteligente e factual o livro "Ciência da vida após a morte", de Alexander Moreira-Almeida, Humberto Schubert Coelho e Marianna Costa, investigadores do NUPES-UFJF, não será mais do que o equivalente a um aparelho de televisão como o de lá de casa. O cérebro estará apenas a reproduzir o que o ser espiritual (Espírito) está a emitir. Destruído o cérebro, o "emissor da consciência" continua a funcionar nela mesma.

Posto isso, seria leviandade ignorar evidências muito sugestivas. A seleção de maior qualidade enquadra fenómenos de experiências de quase-morte (EQM), de mediunidade e de crianças que se lembram de vidas passadas.

 

O caso Laufmann

 

Na "Revista Argentina de Psicologia Paranormal", de 28 de janeiro de 2020, Muldoon e Carrington (1951/1969) descrevem este caso de experiência de quase-morte (EQM) de W. Laufmann, um vendedor que tinha sido hospitalizado por ter contraído uma doença não especificada, aparentemente grave, em Omaha (EUA, Nebrasca).

Nas palavras do próprio Laufmann, “Estava ali, no meio do quarto, e vi claramente o meu corpo, morto e deitado na cama. Comecei a sair do quarto e encontrei um dos médicos. Surpreendi-me… ele não me disse nada. Como o médico não fez nenhum esforço para me impedir, fui em direção à rua, onde encontrei um amigo, o Milton Bose. Tentei cumprimentá-lo, dando-lhe uma palmadinha nas costas, mas o meu braço atravessou-o. Era impossível fazer com que me desse atenção. Vi-o atravessar a rua e olhar para a montra de uma loja onde estava exposta uma “roda gigante” em miniatura”.

Laufmann regressou ao seu quarto no hospital. Viu os médicos à volta do seu corpo físico. Discutiam o seu estado. Viu um dos médicos a aplicar uma corrente elétrica nos seus pés, sentiu uma dor intensa e voltou a corpo”. Isto tudo foi confirmado a posteriori.

 

O fantasma do órgão

 

Na prestigiada publicação científica THE NEW ENGLAND JOURNAL OF MEDICINE, saiu a público em 22 de julho de 2024 um artigo intitulado "Phantom of the Organ", escrito por um médico, John Guzzi.

Em síntese, após um transplante de fígado, ao despertar, o paciente começa a ver uma senhora que mais ninguém vê: o vulto de uma mulher de baixa estatura, de meia-idade, de pele escura.

O médico não rejeita o relato do paciente. Tenta compreendê-lo.

O beneficiário do transplante descreve a senhora (Espírito desencarnado) como sendo bem intencionada. Sente até paz na sua presença. O estado geral de saúde do paciente era bom, mas a equipa médica interpreta a visão: Seria delírio? Ou efeitos colaterais dos medicamentos?

A dada altura do internamento no hospital o paciente sente que esse Espírito é a própria doadora do fígado.

Intrigado, o médico vai conferir: pergunta ao colega que extraiu o órgão transplantado qual era o aspeto de quem doou o fígado e descobre que a descrição coincide com a aparência do vulto descrito pelo paciente: “Uma senhora de baixa estatura, de meia idade, pele escura”.

 

Outro caso entre muitos: Sam Taylor

 

Conhecidos por CORT (cases of reencarnation type/casos sugestivos de reencarnação) há uma pesquisa divulgada num artigo científico de Jim Tucker (2008), tão interessante como tantos outros que este psiquiatra investigou. Trata-se de Sam Taylor, uma criança norte-americana.

Quando contava 18 meses, Sam disse ao pai, enquanto este lhe mudava as fraldas: “Quando eu tinha a tua idade, costumava mudar as tuas fraldas". Depois disso, o menino adiantou que tinha sido o avô do atual pai na vida anterior. Forneceu detalhes da sua vida e da dos seus familiares.

Certa vez, a mãe de Sam perguntou-lhe se tinha irmãos ou irmãs na vida anterior. Afirmou correta e espontaneamente que havia uma irmã que fora assassinada.

Quando Sam tinha quatro anos e meio, a mãe mostrou-lhe uma fotografia de um grupo com 16 meninos e 11 meninas: Sam escolheu o jovem correspondente ao avô.

Forneceu outras informações corretas como o lugar favorito do avô na casa, a comida que a sua avó lhe dava todos os dias ("milkshake"), com que aparelho o preparava (utilizava um processador, em vez de liquidificador), que o pai de Sam tinha um brinquedo especial (volante) em criança e também mostrou espontaneamente o carro do avô numa fotografia.

Em suma, vistos estes três ramos de casuística investigada com a maior seriedade, verifica-se que categorias diferentes de fenómenos apontam para a sobrevivência do ser espiritual.

O corpo físico não será, por isso, a fonte da vida, mas um aparelho biológico perecível através do qual a vida se exprime na recolha de experiências e aprendizagem. Isso é muito significativo.

 

Viagem inevitável

 

A desencarnação é um fenómeno inevitável, uma viagem anunciada sem conhecimento da data de partida. Sendo o ser humano um Espírito que possui corpo espiritual e corpo material, quando este último morre há um desligamento e a existência do ser transfere-se para o Plano Espiritual.

A obra de Allan Kardec é vasta e informativa sobre os problemas que podemos enfrentar diante do fenómeno da desencarnação. Particularmente no livro "O Céu e o Inferno" tece considerações amplas, começando por explicar que essas regiões não existem como as religiões desenham. São apenas estados de consciência e, mesmo quando enfrentamos dificuldades na vida espiritual, podemos melhorar de vida e encontrar atividades que multipliquem paz e alegria.

Como seria de esperar, todos esses estudos que Kardec desenvolveu em meados do século XIX, na França, replicam-se de forma espontânea nas atividades habituais nos centros espíritas, sobretudo nas reuniões mediúnicas. Era de esperar: são fenómenos naturais subordinados a leis da natureza.

Estas reuniões semanais, fora do horário de trabalho profissional, regra geral, têm em vista auxiliar Espíritos necessitados de esclarecimento, oferecendo-lhes apoio. Como naqueles momentos revelam dificuldade em ultrapassar pelos seus próprios meios estados de alma dominados pela inércia afetiva, estados depressivos, por uma mente traumatizada pela iminência de um acidente, desejo de vingança, rancor, mágoa, etc., numa imensa variedade de problemas, logo de início os diálogos de auxílio começam por expor Espíritos desencarnados com índice variável de sensação de dor física e/ou psicológica, embora também, em elevada minoria, de aparente ausência de dor.

Neste universo de necessidade de ajuda, a maioria dos Espíritos com que dialogamos nem sequer sabe que já está na vida espiritual.

Toda esta casuística deriva da realidade interior habitual em cada um no seu dia a dia, já que vai ser esta a retrair ou expandir as perceções espirituais, ocultando ou revelando os benfeitores da Vida Maior que a todos atendem, desde que desejem ser ajudados e consigam fixar em si o auxílio generosamente oferecido.

É, assim, útil utilizar o dia a dia como o ginásio da mente, no sentido de a espiritualizar. As recomendações de Jesus de Nazaré sobre as virtudes – generosidade, humildade, capacidade de perdoar, amor tão incondicional quanto possível – devem ser de uso frequente. Só assim se vence a inércia afetiva, eliminando uma miríade de problemas normais, mas não definitivos, da libertação do corpo físico, finda que esteja a bolsa de estudo que a presente vida material configura.

Por palavras conhecidas, diferentes, mas sempre realistas, Allan Kardec deixou bem explícito este espelho de leis da natureza que regulam o ser humano: "fora da caridade não há salvação".

 

Fonte dos gráficos - Pôster REUNIÕES MEDIÚNICAS: UMA ANÁLISE ESTATÍSTICA. Para acessar, CLIQUE AQUI

 

Jorge Gomes, ex-vice-presidente da Federação Espírita Portuguesa, escritor e membro da ADEP - Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal, reside na cidade do Porto, Portugal.


 
  


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