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por Marcus Vinicius de Azevedo Braga

 

A corrida do ouro


A vida moderna, tão corrida, nos alista, ainda que não desejemos, em uma corrida do ouro, expressão que se refere ao movimento de migração para o Oeste estadunidense no Século XIX na busca de encontrar a sorte em uma ou mais pepitas, e que redesenhou a ocupação territorial dos Estados Unidos.

Essa corrida no sentido figurado ficou mais elaborada recentemente, com a entrada no jogo das redes sociais, de ofertas de dinheiro fácil, de prêmios, em uma lógica de ter coisas, de usufruir e ostentar, de consumir de forma hegemônica e que afeta a cada um de nós, mesmo que não percebamos.

Fulano, que não gosta de loterias, toda vez que tem bolão no trabalho, tem que se justificar. Se é para ganhar dinheiro, qualquer sacrifício se faz justificado. Beltrano sonha com os prêmios que vai ganhar gastando parte de seu ordenado em apostas. Sicrano é desejado amorosamente pois tem uma boa condição social e uma carreira de sucesso.

Fugir disso é ser preguiçoso, e a ambição como valor assume um papel ao mesmo tempo central e difuso na vida das pessoas, perdidas em sonhos dourados de serem reis e rainhas de reinados de nossa época.

Essa lógica permeia as relações desde a tenra infância, todos inscritos em uma corrida por milhões, seja pelo trabalho árduo, seja pela sorte no jogo. Em tudo, parece que ser bilionário é o objetivo comum e partilhado da existência, contraposto esse discurso a falas como “dinheiro não traz felicidade”, que parecem jocosas ao se ver como a banda toca realmente.

Mais do que uma crítica, essa é uma constatação das motivações que permeiam a sociedade nesse início do Século XXI, com altas doses de individualismo, de cansaço e de insatisfação crônica, como se a vida fosse uma grande gincana, ou para ser mais moderno, um grande Reality Show, onde tudo é monetizado e ranqueado, com dificuldades de saber quem são as pessoas realmente.

Diante desse cenário, importa lembrar um pouco do que diz a Doutrina Espírita sobre os objetivos da reencarnação, na pergunta 132 de O Livro dos Espíritos:

 

Qual o objetivo da encarnação dos Espíritos? “Deus lhes impõe a encarnação com o fim de fazê-los chegar à perfeição. Para uns, é expiação; para outros, missão. Mas, para alcançarem essa perfeição, têm que sofrer todas as vicissitudes da existência corporal: nisso é que está a expiação. Visa ainda outro fim a encarnação: o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. Para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as ordens de Deus. É assim que, concorrendo para a obra geral, ele próprio se adianta.”

 

Importante destacar dois aspectos aqui: o primeiro, de que a encarnação é um espaço experiencial, de aprendizado, de desempenhar aquele papel junto a um conjunto de outros espíritos e nessa vivência coletiva, evoluir, em um sentido espiritual dessa palavra.

O segundo aspecto é o nosso papel como partícipe na obra da criação, evoluindo por colaborar com a obra geral, e nessa visão encontramos de novo o próximo, o meio ambiente e o coletivo.

Em um mundo imerso no individualismo e na competição, a doutrina espírita nos lembra de que a vida é passageira e eterna, e que o outro importa muito nessa discussão. De que se estamos em uma corrida, sozinho até chegaremos mais rápido, mas juntos chegaremos mais longe.

Importante recordar de coisas tão simples e essenciais nessa correria dos tempos modernos onde se busca não se sabe o quê, seguindo ondas de forma acrítica, esquecendo-nos, espíritas, do tesouro que temos embaixo de nossos pés, que é o conhecimento da vida maior, de forma consistente e viva. 
 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita