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por Bruno Abreu

 

A conquista do livre-arbítrio    


Diz-nos a espiritualidade superior, em O Livro dos Espíritos, que o livre-arbítrio é uma conquista da evolução espiritual.

Temos dificuldade em ver isto porque achamos que temos este direito em qualquer altura da nossa evolução espiritual, pois pensamos que temos sempre o livre-arbítrio.

Se não temos, quem é que nos retira este direito?

Como é dito em cima, este direito é uma conquista da evolução do ser, quem nos retira o direito é a nossa própria ignorância.

Vou dar o exemplo, através de um vício físico, pois ele é mais simples de percebermos.

O vício do álcool ou do tabaco funcionam, para além do corpo físico, através de impulsos que nascem na forma-pensamento. A pessoa que está subjugada por estas vontades, muitas das vezes, passado tempo suficiente, gostariam de abandonar esses vícios, mas não conseguem. Sua cabeça é o grande impedimento.

Embora o seu consumo seja retomado através de um pensamento que surge, podemos perceber claramente que este pensamento é um impulso de um hábito ou vício e não é uma vontade da pessoa. Como devemos ver estes pensamentos que levam ao consumo? Um ato de livre-arbítrio ou uma anulação deste através do pensamento vicioso?

Os pensamentos não são a prova do livre-arbítrio. Muitas vezes, os pensamentos são insuflados pelos irmãos que nos querem menos bem ou partilham os vícios connosco e por outras vezes, são apenas pensamentos que nascem em nossa mente, pela força do hábito, do caráter ou até de um impulso. Por incapacidade mental, caímos no consumo repetitivo a que chamamos de vício, em alguns deles, hábitos mortais.

Jesus disse-nos que somos escravos, somos escravos do que ele chamou de pecado. Este pecado nasce no pensamento. No caso dos vícios, somos escravos destes.

Tudo, incluindo os vícios, nascem e existem no pensamento. O esquecimento ou limpeza mental que acontece de reencarnação para reencarnação é uma bênção, dando-nos armas para mudarmos de hábitos de vida para vida.

Se pudemos ver que, no vício físico, o pensamento deixou de ser um instrumento do livre-arbítrio, pudemos também constatar que no ódio também não o é.

O ódio é um impulso mental sobre uma lembrança de alguma coisa negativa que ocorreu entre nós e alguém.

Alguém teve um ato que nos feriu e nós permitimos que o ódio crescesse em nós. Quando vemos ou lembramos dessa pessoa, automaticamente nasce o ódio em nós, através do pensamento.

Será o ódio uma escolha em direção ao livre-arbítrio ou um automatismo do pensamento como o vício físico?

Escolhemos nós odiar, ou é algo que nasce em nós e nos leva sem escolha, como uma onda gigante?

E a raiva, como funciona? Não será igual ao ódio?

Lembrem-se da última vez que se sentiram agressivos com alguém em alguma situação, independentemente da razão ou da culpa.

Vocês escolheram sentir raiva e agressividade, ou foi algo que nasceu em vocês e vos levou?

Existe algum livre-arbítrio nestes movimentos?

Poderíamos passar por todos, como o orgulho, o egoísmo, a ganância, todos os outros e chegaríamos a mesma conclusão, que são impulsos que aparecem em nós e nos levam, se não dermos conta e colocarmos um travão.

Como disse o Mestre, vós sois escravos, e em O Livro dos Espíritos alertam-nos que muitas vezes somos mais do que influenciados, somos dirigidos.

Onde está o nosso livre-arbítrio?

O mal que nasce em nós anula uma escolha livre, como vimos em cima, mas este contem a hipótese do bem, através do exercício do livre-arbítrio.

Vamos voltar à lembrança do último episódio em que fomos agressivos.

A agressividade apareceu em nós, por algum motivo. Aparece como um impulso que quer tomar conta de nós, e uma parte nossa percebe o que vai ou está a acontecer connosco e por vezes tenta negar este caminho. Algumas vezes não conseguimos, mas, por outras, temos sucesso. Onde foi exercido o livre-arbítrio? Na bondade.

Percebem porque o livre-arbítrio está ligado ao crescimento espiritual e na ignorância do espírito o livre-arbítrio é quase nulo ou nulo?

Em todo o mal existe a semente do bem, que pode florescer através do livre-arbítrio.

Todo vício moral ou físico é uma anulação do nosso livre-arbítrio, e todo esforço para combater estas más tendências é o plantar do livre-arbítrio.

Se formos crentes de que o pensamento é um resultado de nossa vontade, somos joguetes nas mãos do “pecado”, como disse o Mestre.

A desconfiança deste movimento mental é o despertar para a consciência do funcionamento do livre-arbítrio, uma arma fantástica ao crescimento espiritual. Passamos a estar mais atentos ao que acontece em nossas mentes, peneirando o que é bom do que é mau. Como Kardec disse, combatendo as más tendências.

É muito importante adquirirmos hábitos que nos ajudem a sossegar a nossa mente, pois quanto mais turbulenta estiver, maiores fantoches somos.

Quando falamos em fantoches, temos ideia de que alguém nos dirige. No caso da obsessão, é uma realidade, mas o maior obsessor que existe é a nossa ignorância que nos “manipula” automatizadamente em direção à anulação do livre-arbítrio.

Jesus dá-nos a receita para pudermos combater esta “escravatura”: “Vigiai e orai, para que não entreis em tentação”.

A vigilância sobre nós próprios permite aperceber-nos do que vai acontecendo em nossas mentes.

A oração, como o Mestre indica, é o recolhimento aos nossos aposentos e em silêncio, que nosso Pai em silêncio escuta, ou seja, o desenvolvimento do silêncio em nós. O silêncio é a abstinência do pensamento, do desejo, dos impulsos dos vícios, o desapego das más tendências, que é por isso tão importante para nós.

Como estamos habituados às palavras, poderemos usar uma frase antes, como “Pai, dá-me força e coragem para não cair nesta má tendência” ou, como o Mestre mostrou em sua passagem pelo planeta, “Afasta de mim esse cálice, Pai”, e permanecermos um pouco em silêncio mental, como ele permaneceu uma hora a vigiar.

A forma mais fácil de percebermos se estamos realmente a escolher ou ser impulsionados, é colocarmos a hipótese de escolher o contrário.

Imaginem que surge um impulso agressivo. Escolham não ficar; se conseguirem, é livre-arbítrio. Poderão sempre ser agressivos passado 15 minutos, quando tiverem calmos escolherem ser agressivos.  

Nestes casos, como na agressividade, podemos ver facilmente se é livre-arbítrio ou não, mas há outros que são muito mais sutis. Procure saber quais são os seus, para perceber quando é dirigido ou escravizado.    


 

 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita