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por Estênio Negreiros

 

A Igreja Católica e a Intolerância Religiosa

 

“Pesai bem os ensinos dados no Evangelho; sabei distinguir o que está num sentido próprio ou num sentido figurado, e os erros que vos cegaram durante tantos séculos, se apagarão pouco a pouco, para darem lugar à brilhante luz da verdade.” (Espírito João, Evangelista, Bordéus, 1862.)


Com espírito de muita boa-fé pensava eu que o fel e o ranço do preconceito religioso gestados contra o Espiritismo já houvessem sido destilados completamente do organismo da vetusta Igreja Católica Apostólica Romana, chegado este século XXI. Arrimava meu julgamento nas posições adotadas por seus líderes, mormente pelos três últimos papas, principais promotores de campanhas em prol da paz, da concórdia e da tolerância religiosa em todo o mundo ocidental. Mas vi que estava redondamente equivocado quando li um artigo publicado na internet, intitulado O Espiritismo e a Igreja Católica – A Doutrina sobre a Redenção, de autoria de Everth Queiroz Oliveira. Para acessá-lo, clique aqui

Ali, o articulista deixa, claramente, escorrer de sua mente intolerante um quê de ódio doentio, mormente pela doutrina codificada por Allan Kardec, pelo fato de o Espiritismo não concordar com vários dogmas secularmente ensinados e impostos pelo Catolicismo aos seus adeptos. Noutras matérias no mesmo website, e do mesmo autor, destacam-se ataques a outras religiões indistintamente, para ele todas elas obras do Satanás, numa inequívoca demonstração de que todas aquelas investidas só poderão partir de alguém obcecado pelo espírito de sistema ou pelo fanatismo.

No preâmbulo da matéria aludida tem-se a impressão de que o ali exposto é uma posição isolada, pessoal, de quem a escreve, fazendo um deplorável e deliberado proselitismo a favor da religião Católica e atacando o Espiritismo. Todavia, avançando-se na leitura, vê-se que o autor apenas repete o que preceitua a secular e arcaica política preconceituosa e segregacionista praticada por esse colosso de vinte e um séculos, em pleno século XXI; essa mesma Igreja que está sempre à frente também de movimentos que pregam a igualdade e a fraternidade entre os homens, mas que, contrariando o que estimula e ensina, incita à cisão dentro do próprio Cristianismo ao condenar radicalmente ao “fogo do inferno” - que ela, para sua conveniência, inventou - aqueles que seguem outros credos.

Eis um trecho do que o senhor Everth escreve, afora outras opiniões a meu ver infelizes, que afirma contra o Espiritismo, sempre falando em nome da Igreja Católica Apostólica Romana:

“Em 1953 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reafirmou a determinação feita pelo Episcopado Nacional na Pastoral Coletiva de 1915, revista pelos bispos em 1948 nestes termos:

“Os espíritas devem ser tratados, tanto no foro interno como no foro externo, como verdadeiros hereges e fautores de heresias, e ‘não podem ser admitidos à recepção dos sacramentos, sem que antes reparem os escândalos dados, abjurem o espiritismo e façam a profissão de fé'”.

Segundo o novo Direito Canônico (de 1983), “chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dela” (cân. 751). E no cânon 1364 § 1, a nova legislação eclesiástica determina que “o herege incorre automaticamente em excomunhão”, isto é: deve ser excluído da recepção dos sacramentos (cân. 1331 § 1), não pode ser padrinho de batismo (cân. 874), nem da confirmação (cân. 892) e não lhe será lícito receber o sacramento do matrimônio sem licença especial do bispo (cân. 1071) e sem as condições indicadas pelo cânon 1125. Também não pode ser membro de associação ou irmandade católica (cân. 316).[“

É lastimável que no Brasil, denominado pelo Espírito Humberto de Campos, de Coração do Mundo e Pátria do Evangelho, as atitudes de intolerância contra a Doutrina Espírita ainda estejam tão vivas quanto aquelas praticadas nos anos de 1940 da nossa era, quando por exemplo, uma senhora, presidente de uma casa espírita em Pernambuco, foi presa a mando da Justiça (em conluio com a Igreja Católica) pelo simples fato de ela ser adepta do Espiritismo; ou quando, naqueles mesmos tempos, numa cidade do Alto Tietê, em São Paulo, era comum as pessoas mudarem de calçada quando viam que cruzariam com alguém que era espírita, chegando ao cúmulo de cuspirem à sua passagem.

Ensina o Espírito Emmanuel que “A maior caridade que se pode fazer pela Doutrina Espírita é a sua divulgação”, todavia, entendo que o espírita não deva calar-se, mas sim defender sua Doutrina dos anátemas que contra ela são arremessados. Defender um ideal, até mesmo contra ataques gratuitos, significa também propagá-lo.

Alfim, contrapomos as agressões contra outras religiões desferidas pela Igreja, que se intitula a detentora da verdade absoluta e da infalibilidade, com nada menos do que foi escrito por um grupo de sacerdotes católicos espanhóis, em 1874, integrantes do Círculo Cristiano Espiritista de Lérida, no capítulo 5º da obra Roma e o Evangelho – Estudos Filosófico-Religiosos e Teórico-Práticos, resumidos e publicados por D. José Amigó y Pellicer, conforme se segue:

“V - Roma pode errar. - Tem errado. - Pode, portanto, induzir ao erro

Em nossos estudos, tomamos por ponto de partida a hipótese de que a Igreja Romana pode errar e, portanto, induzir a erro os fiéis que seguem os seus ensinos.

Aquele era ponto obrigatório, pois que, admitindo a infalibilidade de Roma, fica entendido que só ela tem o direito de estudar e decidir as questões religiosas.

Que Roma pode errar, como duvidar, se está provado, à evidência, que ela tem errado? E se alguém duvidar, dê-se ao trabalho de lançar a vista pela história dos papas, desses deuses sagrados pelo Concílio Ecumênico de 1870, e compare-a com a história dos deuses da antiga Grécia e da antiga Roma - compare-a com a de todos os dominadores dos povos - e, vendo como uns e outros seguem a mesma rotina de misérias - de corrupções - de fraquezas - de erros - de contradições - de ambições - de fraudes - de arbitrariedades - e de injustiças, concluirá por não reconhecer outros deuses e outras infalibilidades que não sejam o Deus do Céu e da Terra, e a infalibilidade (1) da Sabedoria Infinita.

Que Roma pode errar e tem errado, dizem Victor I, no segundo século da igreja - Marcelino, no terceiro século - Gregório I e Vergílio, no sexto - Bonifácio III e Honório, no sétimo - Formoso, Estevão XI e Adriano II, no nono - João XI e João XII, no décimo - Pascoal II, no undécimo - Eugênio III, no duodécimo e, no décimo quarto, João XXII - no décimo quinto, Eugênio IV, Pio II e Alexandre VI - no décimo sexto, Xisto V - no décimo sétimo e décimo oitavo, Clemente XIV - e no décimo nono, Pio VII.

Que Roma pode errar e tem errado, dizem-no as heresias aprovadas por ela num dia e, no outro, condenadas - as contradições do seu ensino - os progressos da Ciência, condenados e logo depois aproveitados - as influências cortesãs dominantes nos palácios dos papas - o procedimento pouco canônico de uns, para conquistarem a tiara - e outras mil verdades, ainda desconhecidas da imensa maioria dos católicos, referentes à história da falibilidade dos sucessores de S. Pedro, desconhecidas até hoje, mas que serão amanhã conhecidas e apreciadas por quantos tenham olhos de ver e ouvidos de ouvir.

Felizmente, as fogueiras da Inquisição foram para sempre apagadas, não sabemos se a gosto dos infalíveis, ou se ao irresistível sopro da liberdade por eles proscrita e condenada.

E, pois, que Roma pode errar e tem errado, pode também induzir a erros os que das suas doutrinas se alimentam. Eis por que lhe negamos uma autoridade absoluta e inapelável nas decisões religiosas - eis por que lhe negamos o direito de impor uma fé cega - eis por que reivindicamos o direito de intervir diretamente nos negócios da nossa alma.”


(1) “Porque Deus é veraz e todo o homem falaz.” (São Paulo aos Romanos, cap. III, v. 4)


 
 

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita