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por Leonardo Paixão

 

Da Lei de Liberdade


Para bem tratarmos sobre o tema ao qual nos propomos, precisamos ter em vista duas coisas:

1ª Contexto histórico em que a obra kardequiana foi escrita;

2ª A influência de pensamentos filosóficos como o Iluminismo e o inatismo platônico em Allan Kardec.

O racionalismo iluminista aparece forte em Kardec, assim também o inatismo platônico (1). E o que essas filosofias têm a ver com o que o Espiritismo coloca sobre Liberdade?

Atentemos nestas duas questões de O Livro dos Espíritos:

 

825. Haverá no mundo posições em que o homem possa jactar-se de gozar de absoluta liberdade?

“Não, porque todos precisais uns dos outros, assim os pequenos como os grandes”.


827. A obrigação de respeitar os direitos alheios tira ao homem o de pertencer-se a si mesmo?

“De modo algum, porquanto, este é um direito que lhe vem da natureza”.

 

Chamam-nos a atenção as respostas dos Espíritos a Allan Kardec, pois nos dizem que somos animais sociais, trazendo a lembrança do que escreveu Aristóteles:

“...a cidade é uma criação natural, e que o homem é por natureza um animal social, e que é por natureza e não por mero acidente, não fizesse parte de cidade alguma, seria desprezível ou estaria acima da humanidade (...) Agora é evidente que o homem, muito mais que a abelha ou outro animal gregário, é um animal social. Como costumamos dizer, a natureza não faz nada sem um propósito, e o homem é o único entre os animais que tem o dom da fala. Na verdade, a simples voz pode indicar a dor e o prazer, os outros animais a possuem (sua natureza foi desenvolvida somente até o ponto de ter sensações do que é doloroso ou desagradável e externá-las entre si), mas a fala tem a finalidade de indicar o conveniente e o nocivo, e portanto também o justo e o injusto; a característica específica do homem em comparação com os outros animais é que somente ele tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres com tal sentimento que constitui a família e a cidade.” (Política, I, 1253b, 15)

Na questão 827, a resposta dos Espíritos traz “é um direito que lhe vem da natureza”, o de pertencer o ser humano a si próprio. E aqui vemos a influência dos contratualistas. A tradição de pensamento chamada contratualismo se fundamenta no seguinte: Sem um controle, os indivíduos tenderiam a um confronto eterno, o que reduziria suas liberdades e seus direitos. Para garantir esses direitos, pesadores como Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau, apresentam a ideia de que os homens escolheriam abandonar o estado de natureza para constituírem uma sociedade politicamente organizada, através de uma espécie de contrato, no qual os indivíduos delegam parte — ou o todo — de seus poderes no estado de natureza para um “outro”, tendo em vista que esse “outro” proteja seus direitos naturais — ou parte deles.

É o Contrato Social: ideia pela qual estamos em sociedade por aceitar que o Estado proteja nossas liberdades e direitos, em troca de delegarmos poderes a ele.

Podemos ampliar o olhar sobre a abstração contratual pensando o Espírito encarnado que está liberto, isto é, em nosso entendimento, um Espírito menos materializado e menos rígido, portanto em seu estar no mundo, transitando em todos os setores da vida comunitária de forma lúcida.

Segundo o Evangelho de João, 8:32, Jesus disse: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Como Espíritos em trânsito nos caminhos do progresso espiritual, é, justamente, no avançar de nossa compreensão que iremos promovendo nosso despertar e, aqui, é bom pensarmos sobre o processo reencarnatório.

A reencarnação é um processo dialético. Allan Kardec na Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo, afirma que Sócrates e Platão são precursores da ideia cristã e do Espiritismo. É interessante observarmos que tais referências, nos dizem também, da influência desses filósofos no arcabouço da Doutrina Espírita e, Sócrates, como podemos ler os diálogos, platônicos usava do método dialético, isto é, conversar para questionar e esclarecer ideias e assim “parir” o conhecimento através de perguntas, método conhecido como maiêutica.

Nós vivemos esse processo dialético em nosso dia a dia. Um dia uma forma de pensar nos satisfaz, em outro já não satisfaz mais; um dia estamos bem, outro dia estamos mal e, nesses casos é importante o exercício da dialética reflexiva que é um processo de pensamento crítico que envolve a análise profunda de ideias, conceitos e situações. À medida que eu vou conhecendo experienciando a vida, eu passo a refletir sobre meus pensamentos, sobre as minhas opiniões, e eu posso fazer o processo de negar posicionamento que eu tinha antes ou eu posso afirmar aquele, só que agora com maior fundamentação, porque melhor avaliado.

A real liberdade do Espírito se dá com o progressivo melhoramento do ser e este melhoramento se dá de duas formas que estão interligadas: o desenvolvimento do intelecto que propicia o processo da dialética reflexiva e o desenvolvimento do amor, que se amplia na medida em que as experiências vividas trazem progresso na inteligência, considerando aqui a Inteligência Emocional (capacidade de reconhecer, entender e gerenciar suas próprias emoções e as dos outros. É como um “GPS” das emoções que ajuda a navegar pelas nossas emoções e na construção de relacionamentos mais saudáveis) e a Inteligência Espiritual (capacidade humana de buscar significado e propósito na vida. Ela envolve a conexão com valores mais profundos além de auxiliar na busca por um sentido de identidade e a explorar questões existenciais). 

 
  
    

     
     

O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita