Da Lei de Liberdade
Para bem tratarmos sobre o tema ao qual nos propomos,
precisamos ter em vista duas coisas:
1ª Contexto histórico em que a obra kardequiana foi
escrita;
2ª A influência de pensamentos filosóficos como o
Iluminismo e o inatismo platônico em Allan Kardec.
O racionalismo iluminista aparece forte em Kardec, assim
também o inatismo platônico (1). E o que essas
filosofias têm a ver com o que o Espiritismo coloca
sobre Liberdade?
Atentemos nestas duas questões de O Livro dos
Espíritos:
825. Haverá no mundo posições em que o homem possa
jactar-se de gozar de absoluta liberdade?
“Não, porque todos precisais uns dos outros, assim os
pequenos como os grandes”.
827. A obrigação de respeitar os direitos alheios tira
ao homem o de pertencer-se a si mesmo?
“De modo algum, porquanto, este é um direito que lhe vem
da natureza”.
Chamam-nos a atenção as respostas dos Espíritos a Allan
Kardec, pois nos dizem que somos animais sociais,
trazendo a lembrança do que escreveu Aristóteles:
“...a cidade é uma criação natural, e que o homem é por
natureza um animal social, e que é por natureza e não
por mero acidente, não fizesse parte de cidade alguma,
seria desprezível ou estaria acima da humanidade (...)
Agora é evidente que o homem, muito mais que a abelha ou
outro animal gregário, é um animal social. Como
costumamos dizer, a natureza não faz nada sem um
propósito, e o homem é o único entre os animais que tem
o dom da fala. Na verdade, a simples voz pode indicar a
dor e o prazer, os outros animais a possuem (sua
natureza foi desenvolvida somente até o ponto de ter
sensações do que é doloroso ou desagradável e
externá-las entre si), mas a fala tem a finalidade de
indicar o conveniente e o nocivo, e portanto também o
justo e o injusto; a característica específica do homem
em comparação com os outros animais é que somente ele
tem o sentimento do bem e do mal, do justo e do injusto
e de outras qualidades morais, e é a comunidade de seres
com tal sentimento que constitui a família e a cidade.”
(Política, I, 1253b, 15)
Na questão 827, a resposta dos Espíritos traz “é um
direito que lhe vem da natureza”, o de pertencer o ser
humano a si próprio. E aqui vemos a influência dos
contratualistas. A tradição de pensamento chamada contratualismo se
fundamenta no seguinte: Sem um controle, os indivíduos
tenderiam a um confronto eterno, o que reduziria suas
liberdades e seus direitos. Para garantir esses
direitos, pesadores como Thomas Hobbes, John Locke e
Jean-Jacques Rousseau, apresentam a ideia de que os
homens escolheriam abandonar o estado de natureza para
constituírem uma sociedade politicamente organizada,
através de uma espécie de contrato, no qual os
indivíduos delegam parte — ou o todo — de seus poderes
no estado de natureza para um “outro”, tendo em
vista que esse “outro” proteja seus direitos
naturais — ou parte deles.
É o Contrato Social: ideia pela qual estamos em
sociedade por aceitar que o Estado proteja nossas
liberdades e direitos, em troca de delegarmos poderes a
ele.
Podemos ampliar o olhar sobre a abstração contratual
pensando o Espírito encarnado que está liberto, isto é,
em nosso entendimento, um Espírito menos materializado e
menos rígido, portanto em seu estar no mundo,
transitando em todos os setores da vida comunitária de
forma lúcida.
Segundo o Evangelho de João, 8:32, Jesus disse:
“Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.
Como Espíritos em trânsito nos caminhos do progresso
espiritual, é, justamente, no avançar de nossa
compreensão que iremos promovendo nosso despertar e,
aqui, é bom pensarmos sobre o processo reencarnatório.
A reencarnação é um processo dialético. Allan Kardec na
Introdução de O Evangelho segundo o Espiritismo,
afirma que Sócrates e Platão são precursores da ideia
cristã e do Espiritismo. É interessante observarmos que
tais referências, nos dizem também, da influência desses
filósofos no arcabouço da Doutrina Espírita e, Sócrates,
como podemos ler os diálogos, platônicos usava do método
dialético, isto é, conversar para questionar e
esclarecer ideias e assim “parir” o conhecimento através
de perguntas, método conhecido como maiêutica.
Nós vivemos esse processo dialético em nosso dia a dia.
Um dia uma forma de pensar nos satisfaz, em outro já não
satisfaz mais; um dia estamos bem, outro dia estamos mal
e, nesses casos é importante o exercício da dialética
reflexiva que é um processo de pensamento crítico que
envolve a análise profunda de ideias, conceitos e
situações. À medida que eu vou conhecendo experienciando
a vida, eu passo a refletir sobre meus pensamentos,
sobre as minhas opiniões, e eu posso fazer o processo de
negar posicionamento que eu tinha antes ou eu posso
afirmar aquele, só que agora com maior fundamentação,
porque melhor avaliado.
A real liberdade do Espírito se dá com o progressivo
melhoramento do ser e este melhoramento se dá de duas
formas que estão interligadas: o desenvolvimento do
intelecto que propicia o processo da dialética reflexiva
e o desenvolvimento do amor, que se amplia na medida em
que as experiências vividas trazem progresso na
inteligência, considerando aqui a Inteligência Emocional
(capacidade de reconhecer, entender e gerenciar suas
próprias emoções e as dos outros. É como um “GPS” das
emoções que ajuda a navegar pelas nossas emoções e na
construção de relacionamentos mais saudáveis) e a
Inteligência Espiritual (capacidade humana de buscar
significado e propósito na vida. Ela envolve a conexão
com valores mais profundos além de auxiliar na busca por
um sentido de identidade e a explorar questões
existenciais).