MARCELO HENRIQUE
PEREIRA
cellosc@floripa.com.br
Florianópolis,
Santa Catarina
(Brasil)
O
medo sob a ótica
espírita
Quem de nós já
não sentiu ou
sente medo (ou
medos)? Medo do
escuro; dos
mortos; de
aranhas ou
cobras; de
lugares
fechados...
De perder; de
lutar; de
chorar; de
perder quem se
ama...
De empobrecer;
de não ser
amado...
De dentista; de
sentir dor...
Da violência; de
ser vítima de
crimes...
Do vestibular;
das provas
escolares; de
novas
oportunidades de
trabalho ou
emprego...
O medo envolve
as pessoas e,
generalizadamente,
as impede de
realizar as
mínimas
obrigações do
dia-a-dia. Ou,
de outro modo,
as perturba de
modo tão
profundo, que
provoca o
desânimo, a
prostração, a
imobilidade, a
depressão...
O certo é que,
de uma forma ou
de outra, temos
de conviver com
alguns medos. E
evitá-los,
muitas vezes, ou
esquecê-los...
A própria
cultura ou
formação
religiosa nos
incute o medo.
Veja-se, por
exemplo, a
crença do pecado
original que a
Humanidade,
segundo tal
entendimento,
carrega até
hoje. Isto
resulta,
naturalmente, no
medo de Deus e
das reprimendas
ou represálias
que Ele pode
lançar sobre as
pessoas ou
civilizações.
Por
conseqüência, a
religião incute
o medo do
futuro, a vida
além-morte, já
que, segundo o
entendimento
dominante, a
passagem nos
levará a uma de
três situações:
Céu, Inferno e
Purgatório. Como
raros são os que
se consideram
habilitados para
o Paraíso, não
nos considerando
criaturas tão
evoluídas ou
merecedoras
assim, dentre as
possibilidades
possíveis, ou
iremos para o
Inferno ou - dos
males o menor –
para o
Purgatório. E
teremos de
suportar mais
sofrimentos.
Então, tememos
por eles...
Restringindo um
pouco mais o
alcance do
entendimento do
medo, podemos
analisar os
chamados medos
dos espíritas,
ou os medos
decorrentes do
contato com a
filosofia
espírita. São
eles:
Medo da vida; da
morte; do
futuro; dos
relacionamentos;
dos outros; dos
Espíritos; da
reencarnação; do
destino...
Temos medo da
vida, ou seja,
do que a vida
nos oferece em
termos de
conjuntura e
possibilidades.
Na verdade, o
medo é de
fracassarmos no
resgate de erros
pretéritos ou da
experimentação,
por novas provas
que poderiam,
ambas (provas e
expiações), nos
garantir o
ingresso em
melhores
condições
espirituais
futuras.
Medo da morte,
porque por mais
que possamos ler
obras que
relatam a vida
no Plano
Espiritual e os
depoimentos
daqueles que lá
estão, ainda
somos céticos em
aceitar tais
informações como
verdades,
primeiro porque
não temos
recordação de
nossos
“retornos”,
segundo porque
não nos achamos,
muitas vezes,
nos mesmos
patamares
daqueles que nos
trazem
informações “do
lado de lá”.
O medo do futuro
acha-se
associado à
pós-morte, como
visto acima, mas
também enquadra
a extensão dos
dias de nossa
atual
experiência
encarnatória,
imaginando que
haverá, ainda,
muitos débitos
para serem
ajustados e
experiências
desconhecidas,
as quais não
temos idéia se
conseguiremos ou
não administrar
e sermos
exitosos.
Quanto aos
relacionamentos,
tendo em vista o
nível comum dos
seres que
habitam este
orbe, temos medo
de “nos
abrirmos” ao
outro, com
receio de sermos
enganados,
machucados,
prejudicados.
Disto resulta a
ausência de
plenitude, de
envolvimento, de
vivência dos
sentimentos e
das sensações
que fazem parte
da própria vida,
ou seja, é
impossível saber
o “gosto” das
coisas e
situações sem
experimentá-las.
Então, temos
medo dos outros,
de que eles nos
possam causar
mal, em qualquer
dos ambientes em
que nos
inserimos: o
colega de
trabalho ou
estudo, o
vizinho, o
conhecido, o
amigo, o
parente...
Todos, ou quase,
nos representam
ameaças vivas
àquilo que
projetamos ou
desejamos para
nós. Contudo, de
igual forma como
o anterior, não
é possível
antever com
certeza absoluta
e plena “quem” é
o outro, “como”
ele se comporta
ou “por quê” ele
age dessa ou
daquela maneira.
Somente
vivenciando é
que saberemos se
o outro é
companheiro ou
inimigo, se quer
nos ajudar ou
prejudicar...
Curiosamente, de
todos os medos
antes listados,
comuns aos
espíritas, o
mais intrigante
é o de
Espíritos.
Afinal, no
cotidiano das
instituições
espíritas, com
seus
diversificados
trabalhos, o
contato e a
parceria entre
nós e eles, isto
é, entre
encarnados e
desencarnados, é
a matéria-prima
da atividade
espiritista.
Como podemos
temê-los, se a
teoria
kardequiana nos
explica,
detalhadamente,
quem são eles,
quais suas
características
e de que modo se
processam as
relações entre
“vivos” e
“mortos”? Há
espíritas,
muitos mesmo,
por aí, que se
arrepiam ante a
perspectiva de
travarem
qualquer contato
com “os
Espíritos”, de
presenciarem
qualquer
fenômeno
mediúnico.
Chegam a ter
medo de dormir,
de ficar
sozinhos, de
apagar a luz, na
iminência de
serem
“surpreendidos”
por alguém que
já está “do
outro lado”.
E por que,
então, têm eles
medo da
reencarnação?
Porque, pela
interpretação
espírita, quando
não aproveitamos
as situações de
nossa atual
existência e
continuamos a
perseverar no
erro,
provavelmente
teremos de
retornar em
condições
existenciais
mais difíceis,
com maiores
provas e
sujeitos à
reparação de
outros débitos.
Então o ser olha
para si, para
sua vida, para
aquilo que
considera quase
impossível de
realizar ou
melhorar, e
sente enorme
receio de ter
que retornar a
este “vale de
lágrimas”.
Por fim, há o
medo do
“destino”, como
se este
existisse, como
se, a cada um de
nós, estivesse
“reservado” isso
ou aquilo, desse
ou daquele modo.
Enxergamos a
vida como se ela
fosse
pré-traçada de
modo definitivo
(ou quase) e que
não pudéssemos,
nós, alterar-lhe
o curso
pré-estabelecido.
Assim sendo,
caberia a
pergunta: – Por
que o
Espiritismo
destrói o medo
em nós?
A resposta
possui várias
vertentes ou
condicionantes
que, somados e
bem
compreendidos,
podem nos
auxiliar a
superar os medos
que vivenciamos:
1. Somos
Espíritos, logo,
somos seres
imortais. Não
somos
aniquilados e a
eventual
destruição do
planeta, pela
ação humana, não
nos deixará “sem
morada”. Daí,
Vida e Morte
serem etapas da
trajetória
espiritual a que
todos estamos
sujeitos;
2. Reencarnamos
porque
precisamos.
Somente a teoria
das vidas
sucessivas pode
explicar as
desigualdades
entre os
Espíritos
(encarnados ou
desencarnados).
É por ela que
todos os
Espíritos podem
experimentar as
diversas
contingências da
evolução
(provas,
expiações,
missões), de
modo que, em
cada uma das
encarnações, o
ser poderá viver
sob diferentes
condições, entre
as quais a
riqueza, a
pobreza, a
fartura, a
necessidade, a
inteligência
privilegiada, a
limitação dos
sentidos, a
beleza, a
feiúra, entre
outros. Por
conseqüência, o
progresso é
sempre
ascendente,
razão pela qual
é acertado dizer
que, hoje, somos
infinitamente
melhores do que
já fomos.
3. Não há
destino, sorte
ou azar. Deus
não escolhe
(premia ou pune)
os indivíduos a
seu bel-prazer
ou mediante
critérios
personalísticos
e discutíveis.
Deus não
castiga, nem
recompensa. Nós
é que recebemos
o efeito daquilo
que praticamos.
Somos, sempre, o
resultado de nós
mesmos. As lutas
que travamos são
sempre contra
nós mesmos, em
relação às
nossas
imperfeições
morais. O
resultado,
quando exitoso,
importa no
avanço na escala
evolutiva, que
representa a
vitória sobre
nossas
limitações e o
credenciamento a
outras (e
melhores)
oportunidades.
4. O passado
espiritual de
cada um, por
certo, é
composto por
erros,
limitações,
dívidas. Mas a
Justiça e a
Contabilidade
divinas que
administram
nossas idas e
vindas, sob
diferentes
roupagens, não
são baseadas em
automatismos ou
abordagens
cartesianas (do
tipo pagar na
mesma moeda o
mal causado). A
dinâmica das
Leis Espirituais
comporta um
mecanismo perene
e perfeito de
“dar a cada um
segundo suas
obras”, isto é,
de considerar, a
cada passo, em
cada evento,
tanto o que
fizemos de
errado quanto o
que obramos em
acerto, o que
deixamos de
fazer e a
responsabilidade,
pessoal e
intransferível
em relação a
cada
procedimento
(ação ou
omissão).
5. O presente, a
vida física nos
direciona à
necessidade de
agirmos como
pessoas
encarnadas,
vivenciando as
experiências do
ser material,
mas com a
atenção às
questões de
natureza
espiritual (tal
como asseverou
Jesus, “viver no
mundo sem ser do
mundo”). Ou
seja, viver do
melhor modo
possível,
aproveitando os
capítulos da
vida como meios
de aprendizado e
busca da
felicidade,
ainda relativa.
6. O futuro deve
ser encarado sob
duplo viés: a) a
vida no Plano
Espiritual, com
características
bastante
similares à vida
física, pois
continuamos a
ser o que somos,
com nossas
simpatias e
antipatias,
gostos e
pendências,
valores e
limitações; e,
b) o preparo
para novas
encarnações, nas
quais ocorrerá a
nossa depuração,
até galgarmos os
estágios da
Escala
Espiritual.
A arma para
vencer todos os
medos (assim
como as
limitações
espirituais) é,
sempre, o
conhecimento.
Conhecimento que
deriva da
informação
acerca das
realidades
física e
espiritual, o
primeiro
decorrente das
pesquisas e
experiências
científicas e, o
segundo, do
intercâmbio
mediúnico e do
desenvolvimento
de teses
espíritas. O
conhecimento,
porém, não é só
mera teoria. De
nada valem as
decorebas das
questões e
máximas
espíritas. Isto
é somente
informação.
Esta, para
transmudar-se em
conhecimento, há
que estar aliada
à prática, à
conduta, que nos
qualificará como
seres em
contínua
evolução,
superando medos
e limitações.