GERSON SIMÕES
MONTEIRO
gerson@radioriodejaneiro.am.br
Rio de Janeiro,
RJ (Brasil)
O
Anjo solitário
Enquanto o
Mestre agonizava
na cruz,
rasgou-se o céu
em Jerusalém e
entidades
angélicas, em
grupos extensos,
desceram sobre o
Calvário
doloroso...
Na poeira escura
do chão, a
maldade e a
ignorância
expeliam trevas
demasiadamente
compactas para
que alguém
pudesse divisar
as manifestações
sublimes.
Fios de
claridade
indefinível
passaram a ligar
o madeiro ao
firmamento,
embora a
tempestade se
anunciasse a
distância...
O Cristo, de
alma sedenta e
opressa,
contemplava a
celeste
paisagem,
aureolado pela
glória que lhe
bafejava a
fronte de herói,
e os emissários
do paraíso
chegavam, em
bandos, a
entoarem
cânticos de amor
e reconhecimento
que os tímpanos
humanos jamais
poderiam
perceber.
Os anjos da
ternura
rodearam-lhe o
peito ferido,
como a lhe
insuflarem
energias novas.
Os portadores da
consolação
ungiram-lhe os
pés sangrentos
com suave
bálsamo.
Os embaixadores
da harmonia,
sobraçando
instrumentos
delicados,
formaram coroa
viva, ao redor
de sua
atribulada
cabeça,
desferindo
comovedoras
melodias a se
espalharem por
bênçãos de
perdão sobre a
turba
amotinada.
Os emissários da
beleza teceram
guirlandas de
rosas e lírios
sutis, adornando
a cruz ingrata.
Os
distribuidores
da justiça,
depois de lhe
oscularem as
mãos quase
hirtas,
iniciaram a
catalogação dos
culpados para
chamá-los a
esclarecimento e
reajuste em
tempo devido.
Os doadores de
carinho, em
assembléia
encantadora,
postaram-se à
frente dele e
acariciavam-lhe
os cabelos
empastados de
sangue.
Os enviados da
luz acenderam
focos brilhantes
nas chagas
doloridas,
fazendo-lhe
olvidar o
sofrimento.
Trabalhavam os
mensageiros do
Céu, em torno do
Sublime Condutor
dos homens,
aliviando-o e
exaltando-o,
como a lhe
prepararem o
banquete da
ressurreição,
quando um anjo
aureolado de
intraduzível
esplendor
apareceu,
solitário,
descendo do
império
magnificente da
Altura.
Não trazia
seguidores e, em
se abeirando do
Senhor,
beijou-lhe os
pés, entre
respeitoso e
enternecido. Não
se deteve na
ociosa
contemplação da
tarefa que,
naturalmente,
cabia aos
companheiros,
mas procurou os
olhos de Jesus,
dentro de uma
ansiedade que
não se observara
em nenhum dos
outros.
Dir-se-ia que o
novo
representante do
Pai Compassivo
desejava
conhecer a
vontade do
Mestre, antes de
tudo. E, em
êxtase,
elevou-se do
solo em que
pousara, aos
braços do
madeiro
afrontoso.
Enlaçou o busto
do Inesquecível
Supliciado, com
inexcedível
carinho, e
colou, por um
instante, o
ouvido atento em
seus lábios que
balbuciavam de
leve.
Jesus pronunciou
algo que os
demais não
escutaram
distintamente.
O mensageiro
solitário
desprendeu-se,
então, do lenho
duro, revelando
olhos serenos e
úmidos e, de
imediato, desceu
do monte
ensolarado para
as sombras que
começavam a
invadir
Jerusalém,
procurando
Judas, a fim de
socorrê-lo e
ampará-lo.
Se os homens lhe
não viram a
expressão de
grandeza e
misericórdia, os
querubins em
serviço também
lhe não notaram
a ausência. Mas,
suspenso no
martírio, Jesus
contemplava-o,
confiante,
acompanhando-lhe
a excelsa
missão, em
silêncio.
Esse era o anjo
da Caridade.
(Mensagem
extraída do
livro Estante da
vida, cap. 34.)