 |
Ética na
comunicação
social espírita
É necessário
manter-se fiel
aos princípios
doutrinários,
sem permitir que
isso se
transforme em
pretexto
para disputas
pessoais |
|
|
“Linguagem sã e
irrepreensível
para que o
adversário se
envergonhe, não
tendo nenhum mal
que dizer de
nós.” – Paulo
(Tito, 2:8.)
“A maior
caridade que
praticamos com a
Doutrina
Espírita é a sua
própria
divulgação.” –
Emmanuel
A ética ou moral
constitui a
chamada
“filosofia do
agir”, de cunho
eminentemente
prático, e visa
alcançar o bem
puro e simples
do homem,
segundo o
conceito
desenvolvido por
Jacques Maritain
(INTRODUÇÃO
GERAL À
FILOSOFIA, Ed.
Agir, Rio de
Janeiro, 1953,
p. 151). Dentro
dessa ideia
geral, ela se
volta muito mais
para o homem, no
particular
aspecto de sua
bondade ou
perfeição, em
face de sua
capacidade de
exercitar o
livre-arbítrio.
As obras
preparadas e
produzidas por
ele somente a
interessam desde
que se mostrem
reveladoras do
seu “agir”,
entendido como o
“livre uso de
nossas
faculdades” (op.
cit. p. 151).
Daí a razão por
que se diz que a
Ética é a
Filosofia
Prática por
excelência.
As normas morais
não se impõem
coercitivamente
ao homem, ao
contrário do que
se verifica no
âmbito do
Direito. As
sanções
decorrentes de
suas violações
se apresentam
como o efeito
inevitável da
reação da
consciência de
cada um diante
do mal
provocado, sendo
irrelevante o
fato de a
justiça terrena
não se
pronunciar a
respeito.
Em relação a
elas é
inteiramente
pertinente a
recomendação de
Paulo na
primeira carta
aos Coríntios:
“Todas as coisas
me são lícitas,
mas nem todas as
coisas convêm.
Todas as coisas
me são lícitas,
mas eu não me
deixarei dominar
por nenhuma”. (I
Cor., 6:12.)
Daí se percebe a
grande distância
que ainda existe
entre os campos
da moral e do
direito, de que
os romanos já
davam notícia no
famoso aforismo:
“Non omne quod
licet honestum
est” (nem tudo o
que é lícito, é
honesto).
Nem sempre o que
a lei dos homens
permite é
adequado aos
propósitos
superiores do
Espiritismo
Todas as
atividades
humanas
sujeitam-se aos
dois
ordenamentos
legais: o ético
e o jurídico.
As situações
que se acham
expressamente
disciplinadas
pelos chamados
Códigos de Ética
– destinados
especificamente
a profissionais
de determinadas
áreas –
interessam mais
ao Direito do
que à Ética
propriamente
dita, porquanto
cuidam de
estabelecer
normas
reguladoras do
exercício da
profissão e de
definir as
infrações
cometidas por
esses
profissionais,
cominando-lhes
as sanções
respectivas.
Algumas são de
tamanha
gravidade que se
transformam em
objeto de
tratamento
jurídico-penal,
a exemplo do que
ocorria até
abril do ano
passado, quando
o Supremo
Tribunal
Federal, em
decisão no
mínimo
discutível,
revogou, ao
questionável
argumento de que
feria os
princípios da
verdadeira
democracia
(sic), a chamada
Lei de Imprensa
(Lei 5250/67).
Isso, todavia,
não implica uma
faculdade
absoluta que
assegure aos
profissionais da
imprensa um
leviano, amplo e
total direito de
desconhecerem os
mais comezinhos
princípios de
ética e de bom
senso que os
devem reger,
sujeitando-os,
iniludivelmente,
às sanções
previstas no
Código Penal, e
que visam à
proteção da
honra alheia.
Tais
considerações se
aplicam a todos
os que trabalham
na área da
comunicação,
seja como
profissionais,
seja como
simples
colaboradores
eventuais. Delas
não escapam,
portanto, os que
se encontram de
alguma forma
comprometidos
com a divulgação
da Doutrina dos
Espíritos, sobre
os quais,
inclusive, recai
uma enorme
responsabilidade.
Enquanto que aos
que se dedicam à
comunicação em
sentido genérico
basta, na grande
maioria das
vezes, o
acomodamento à
licitude formal
de suas ações,
sem maiores
preocupações com
o seu aspecto,
ao comunicador
espírita isso
não é
suficiente. A
advertência de
Paulo haverá de
estar sempre à
frente de todas
as suas
atividades,
lembrando-lhe
que nem sempre a
atitude
permitida pela
lei dos homens
está
convenientemente
adequada aos
propósitos
superiores do
Espiritismo.
Os meios de
comunicação
espírita não
podem se reduzir
à
condição de
arena dos
conflitos
pessoais
As polêmicas de
cunho
doutrinário, que
já se tornaram
um lugar comum
em alguns órgãos
da imprensa
espírita, e que
hoje ganham
força e alcance
desmedidos
através da
Internet,
afrontam
violentamente os
postulados da
verdadeira
ética. Nenhum
benefício trazem
para o
Espiritismo e,
como ações
reveladoras do
“agir” de seus
autores,
demonstram que
eles permanecem
estacionados
naquela situação
mencionada por
Kardec em O
LIVRO DOS
MÉDIUNS, quando
se referiu à
pouca
compreensão, por
um grande número
de adeptos, da
verdadeira
essência da
Doutrina,
indispensável à
criação de um
“laço forte” que
prenda entre si
todos os seus
trabalhadores
(op. cit. item
334, p. 430).
Isso, contudo,
não significa a
proibição ou a
censura às
discussões
sérias a
respeito de
alguns temas
modernos, e que
não podem ser
desconhecidos ou
omitidos pelos
espíritas, como
é o caso, por
exemplo, da
questão relativa
às pesquisas com
embriões vivos,
do aborto, da
eutanásia e do
reconhecimento
oficial das
chamadas uniões
homo afetivas,
que, no nosso
modo de ver, são
inteiramente
incompatíveis
com o
Espiritismo.
Referidas
polêmicas
acabam, seguindo
a linha natural
de episódios
desta natureza,
por se
transformarem em
um instrumento
de agressões
recíprocas. Por
outro lado, não
conseguem
esconder que se
prestam muito
mais ao
indesejável
extravasamento
do orgulho e
vaidade de seus
participantes do
que à divulgação
do Espiritismo.
Os meios de
comunicação
espírita não
podem ser
reduzidos à
condição de
arena dos
conflitos
pessoais, ainda
mesmo quando
tais contendas
venham
mascaradas de
uma postura de
intransigente
defesa dos
postulados
kardequianos. Os
que agem dessa
forma, não
obstante a boa
intenção que os
move,
esquecem-se de
que o
Codificador
sempre
recomendou a
tolerância em
face de opiniões
e conceitos
divergentes. A
sua divisa -
trabalho,
tolerância,
solidariedade -
se encontra
presente em
todas as suas
ações e
pronunciamentos,
dentre os quais
merece especial
destaque o
constante de A
Constituição do
Espiritismo, in
verbis: “Se
tenho razão,
todos acabarão
por pensar como
eu; se estou em
erro, acabarei
por pensar como
os outros”.
(OBRAS PÓSTUMAS,
p. 349).
Criar, alimentar
ou fomentar
disputas de
conteúdo
doutrinário
constitui um
desserviço à
Doutrina
Compete, pois, a
todos quantos se
acham
comprometidos
com a
Comunicação
Social Espírita
a consciente
utilização dos
recursos que a
tecnologia
oferece, a fim
de colocar o
Espiritismo a
serviço de toda
a humanidade,
como doutrina de
consolação e
esperança. O
emprego desses
recursos, ainda
que
bem-intencionado,
para criar,
alimentar ou
fomentar
disputas de
conteúdo
doutrinário,
implica um
indisfarçável
desserviço à
Doutrina, mesmo
porque torna
público o que
deveria
permanecer
limitado aos
recintos
internos das
instituições
espíritas.
As divergências
que porventura
existam entre os
seus adeptos,
deverão ser
resolvidas em
torno do diálogo
e da
compreensão.
Diante das
incongruências
de Pedro, das
pretensões
descabidas de
João e André, da
incredulidade de
Tomé ou da
aleivosia de
Judas, Jesus não
se utilizou das
armas do revide,
não discutiu com
eles, nem se pôs
a alardear
publicamente os
seus defeitos.
Em seus sermões
– que eram o
meio de que
dispunha, na
comunicação com
as massas –,
jamais tornou
públicos esses
procedimentos e
atitudes, embora
tenha corrigido,
até com
severidade, os
seus autores,
como no episódio
em que Pedro
demonstrou seu
inconformismo e
incompreensão em
face da missão
do Mestre: -
“Ele, porém,
voltando-se,
disse a Pedro:
Para trás de
mim, Satanás,
que me serves de
escândalo;
porque não
compreendes as
coisas que são
de Deus, mas só
as que são dos
homens”. (Mat.,
16: 23.)
O maior desafio
da área da
Comunicação
Social Espírita
diz respeito à
imperiosa
exigência de se
fazer com que o
bom senso esteja
presente em
todas as suas
atividades. No
seu caso
específico,
ética e bom
senso se
identificam e
daí resultam
alguns
parâmetros
dentro dos quais
suas ações devem
desenvolver-se.
Embora o
escândalo se
faça muitas
vezes
necessário, o
responsável
sofrer-lhe-á as
consequências
Divulgar, sem
polemizar.
Manter-se fiel
aos princípios
doutrinários,
sem permitir que
isso se
transforme em
pretexto para
disputas
pessoais.
Reconhecer, na
nobilitante
tarefa de levar
o Espiritismo ao
alcance de um
maior número de
pessoas, uma
oportunidade de
resgate pessoal
e não um favor
que se presta
aos
destinatários
das
informações.
Nunca omitir
que, por maior
que seja o grau
de conhecimento
doutrinário
atingido,
ninguém pode, em
face da própria
indigência
espiritual de
toda a
humanidade,
arvorar-se na
condição de
Mestre.
Jamais se deixar
envolver pelo
sensacionalismo,
pela ânsia do
furo de
reportagem, pela
divulgação, em
primeira mão, da
novidade, uma
vez que, a esse
respeito, Kardec
foi incisivo ao
afirmar: “Se é
certo que a
utopia da
véspera se torna
muitas vezes a
verdade do dia
seguinte,
deixemos que o
dia seguinte
realize a utopia
da véspera,
porém, não
atravanquemos a
Doutrina de
princípios que
possam ser
considerados
quiméricos e
fazer que a
repilam os
homens
positivos”. (A
Constituição do
Espiritismo,
OBRAS PÓSTUMAS,
p. 348.)
Finalmente, ter
sempre em mente
que, embora o
escândalo se
faça muitas
vezes
necessário, o
responsável por
sua causação não
se exime de
sofrer as sérias
consequências
decorrentes da
inexorável lei
de causa e
efeito.