ASTOLFO O. DE OLIVEIRA
FILHO
aoofilho@oconsolador.com.br
Londrina, Paraná
(Brasil)
A Revue Spirite
de 1866
Allan Kardec
(Parte
14)
Continuamos a apresentar
o
estudo da Revue
Spirite
correspondente ao ano de
1866. O texto condensado
do volume citado será
aqui apresentado em 16
partes, com base na
tradução de Júlio Abreu
Filho publicada pela EDICEL.
Questões preliminares
A. O médium zuavo Jacob,
famoso por suas curas,
conseguia curar todos os
enfermos?
Não. Nem todos puderam
ser curados por ele, e
Jacob não os enganava,
dizendo-lhes claramente,
quando fosse o caso:
“Nada posso por vós”.
Com respeito aos demais,
assim que faziam menção
de lhe agradecer,
respondia que nada havia
a agradecer e, às vezes,
dizia: “Vossos
agradecimentos?
Dirigi-os à
Providência”.
(Revue Spirite de 1866,
pp. 316 a 318.)
B. Que impressão tinha
Kardec sobre Maomé, o
fundador do Islamismo?
Uma boa impressão. Disse
Kardec que era um
equívoco, disseminado
pelos adversários de
Maomé, apresentá-lo como
um indivíduo ambicioso,
sanguinário e cruel.
Também não se devia
torná-lo responsável
pelos excessos de seus
sucessores, que
pretenderam conquistar o
mundo para a fé
muçulmana de espada em
punho. Maomé, mesmo em
meio aos seus sucessos,
havendo chegado ao topo
da glória, fechou-se no
seu papel de profeta,
sem jamais usurpar uma
autoridade temporal
despótica: não se fez
rei, nem potentado e
jamais se manchou, na
vida privada, por nenhum
ato de barbárie ou de
cupidez. A religião
muçulmana admite o
Antigo Testamento por
inteiro, até mesmo
Jesus, que reconheceu
como profeta. Segundo
Maomé, Moisés e Jesus
foram enviados por Deus
para ensinar a verdade
aos homens. Como os Dez
Mandamentos, o Evangelho
é a palavra de Deus, mas
os cristãos teriam
alterado o seu sentido.
(Obra citada, pp. 322 a
325.)
C. Quando ocorreram na
Sociedade Espírita de
Paris os primeiros
fenômenos espontâneos de
sonambulismo mediúnico?
Foi em 1866, na última
sessão do ano, antes das
férias, que se verificou
com o Sr. Morin, médium
da Sociedade, o primeiro
fenômeno espontâneo de
sonambulismo mediúnico.
Havendo adormecido sob a
influência dos
Espíritos, ele falou
então com calor e
eloquência sobre um
assunto de alta
seriedade. Em outubro,
na reabertura das
sessões, repetiu-se o
fenômeno com dois outros
médiuns: a sra. C... e o
Sr. Vavasseur. Kardec
refere, na sequência, os
fatos que se deram
naquela oportunidade e
que muito o
impressionaram.
(Obra citada, pp. 337 a
341.)
Texto para leitura
170. Depois de referir
curas diversas
realizadas pelo zuavo, a
Revue explica
como o médium procedia.
Primeiramente ele
introduzia os doentes
numa sala, à base de
dezoito ou mais pessoas
por vez, dependendo das
dimensões do local; os
que vinham de longe eram
convidados a entrar
primeiro. Todos
permaneciam em silêncio,
porque ele dizia que
quem conversasse seria
posto na rua. Ao cabo de
dez ou 15 minutos de
silêncio, Jacob
dirigia-se a alguns
doentes e, sem nada
perguntar, lhes dizia o
que sofriam. Depois,
passeando ao longo da
mesa em redor da qual os
doentes ficavam
sentados, ele falava a
todos e os tocava, mas
sem os gestos usados
pelos magnetizadores. Em
seguida, despedia-os,
dizendo a uns: “Estais
curados”; a outros:
“Apenas tendes
fraqueza”; e a outros,
mais raramente: “Nada
posso por vós”. Aos que
faziam menção de lhe
agradecer, respondia que
nada havia a agradecer
e, às vezes, dizia:
“Vossos agradecimentos?
Dirigi-os à
Providência”. (Págs.
316 a 318.)
171. Em nota aposta às
informações do Sr.
Boivinet, Kardec afirma
que as curas do Sr.
Jacob eram realmente
autênticas e, louvando a
conduta do curador,
assevera que o que
constitui um mérito real
no médium, o que se deve
e pode louvar com razão,
é o emprego que faz de
sua faculdade; é o zelo,
o devotamento, o
desinteresse com os
quais a põe a serviço
daqueles a quem ela pode
ser útil; é ainda a
modéstia, a
simplicidade, a
abnegação, a
benevolência que
respiram em suas
palavras e que suas
ações justificam, porque
essas qualidades lhe
pertencem. “Assim”,
acrescenta o codificador
do Espiritismo, “não é o
médium que se deve pôr
num pedestal, do qual
poderá descer amanhã: é
o homem de bem, que sabe
tornar-se útil sem
ostentação e sem
proveito para a sua
vaidade.” (Págs. 318
a 320.)
172. O número de
novembro de 1866 começa
com novo artigo de
Kardec sobre Maomé e o
Islamismo, do qual
extraímos de forma
resumida as informações
que se seguem: I) Foi em
Medina que Maomé mandou
construir a primeira
mesquita, em que
trabalhou com as
próprias mãos e
organizou um culto
regular. Ali ele pregou
pela primeira vez em
623. II) Dois anos após
instalar-se em Medina,
os Coraychitas de Meca,
unidos a outras tribos
hostis, sitiaram a
cidade. Maomé teve de
defender-se,
iniciando-se para ele um
período guerreiro, que
durou dez anos e durante
o qual se mostrou um
tático hábil. III) Como
a guerra era o estado
normal daqueles povos,
que só conheciam o
direito da força, ao
chefe era necessário o
prestígio da vitória
para firmar sua
autoridade. A persuasão
exercia efeito reduzido
sobre aquela gente
turbulenta e uma grande
mansuetude teria sido
tomada como fraqueza. É
por isso que, mesmo sem
querer, o grande líder
fez-se guerreiro. IV) O
sucesso de Maomé em
tantas batalhas foi
realmente notável, pois,
com exceção de um dos
primeiros combates, em
625, em que foi ferido e
os muçulmanos
derrotados, suas armas
foram sempre vitoriosas,
a ponto de em poucos
anos submeter a Arábia
inteira à sua lei. V)
Maomé pôde, então,
entrar triunfalmente em
Meca, após dez anos de
exílio, seguido por
perto de cem mil
peregrinos, realizando
ali a célebre
peregrinação dita de
adeus, cujos ritos
os muçulmanos
conservaram
escrupulosamente, porque
no mesmo ano, dois meses
depois de seu regresso a
Medina, em 8 de junho de
632, ele morreu.
(Págs. 321 e 322.)
173. Sobre Maomé e sua
obra, Kardec destaca
outros pontos
importantes: I) É um
equívoco, disseminado
pelos adversários de
Maomé, apresentá-lo como
um indivíduo ambicioso,
sanguinário e cruel. II)
Também não se deve
torná-lo responsável
pelos excessos de seus
sucessores, que
pretenderam conquistar o
mundo para a fé
muçulmana de espada em
punho. III) Maomé, mesmo
em meio aos seus
sucessos, havendo
chegado ao topo de sua
glória, fechou-se no seu
papel de profeta, sem
jamais usurpar uma
autoridade temporal
despótica: não se fez
rei, nem potentado e
jamais se manchou, na
vida privada, por nenhum
ato de barbárie ou de
cupidez. IV) Se o papel
de guerreiro lhe foi uma
necessidade e se esse
papel pode escusá-lo de
certos atos políticos,
há, no entanto, alguns
senões que ele poderia
ter evitado, como a
consagração da poligamia
em sua religião, que foi
o seu mais grave erro,
pois isso opôs uma
barreira entre o
Islamismo e o mundo
civilizado. V)
Permitindo quatro
mulheres legítimas,
Maomé esqueceu que, para
que sua lei se tornasse
a da universalidade dos
homens, era preciso que
o sexo feminino fosse ao
menos quatro vezes mais
numeroso que o
masculino. VI) Mau grado
as suas imperfeições, o
Islamismo não deixou de
ser um grande benefício
para a época em que
apareceu e para o país
onde surgiu, porque
fundou o culto da
unidade de Deus sobre as
ruínas da idolatria. A
religião cristã tinha
muitas sutilezas
metafísicas, por isso é
que todas as tentativas
para a implantar nessas
regiões tinham falhado.
VII) Compreendendo os
homens de seu tempo,
Maomé deu-lhes uma
religião apropriada às
suas necessidades e ao
seu caráter. VIII)
Bastante simples, o
Islamismo prega a crença
num Deus único, que vê
nossas ações mais
secretas e que premia ou
castiga, numa outra
vida, os atos que
cometemos. IX) O culto
islâmico consiste na
prece, repetida cinco
vezes por dia, nos
jejuns e mortificações
do mês de ramadân,
e em certas
práticas, como as
abluções diárias, a
abstenção do vinho, das
bebidas inebriantes e da
carne de certos animais.
X) A sexta-feira foi
adotada como o dia santo
da semana e Meca
indicada como o ponto
para o qual todo
muçulmano deve voltar-se
ao orar. XI) A atividade
pública nas mesquitas
consiste em preces em
comum, sermões, leitura
e explicação do Alcorão.
XII) A circuncisão não
foi instituída por
Maomé, mas por ele
conservada, por ser
prática comum dos árabes
desde tempos imemoriais.
XIII) A proibição de
reproduzir pela pintura
ou escultura qualquer
ser vivo foi feita
visando a destruir a
idolatria e impedir que
ela se renovasse. XIV) A
peregrinação a Meca, que
todo fiel deve realizar
ao menos uma vez na
vida, é um ato
religioso, mas seu
objetivo na época era
aproximar, por um laço
fraternal, as diversas
tribos inimigas,
reunindo-as num mesmo
lugar consagrado. XV) A
religião muçulmana
admite o Antigo
Testamento por inteiro,
até mesmo Jesus, que
reconheceu como profeta.
Segundo Maomé, Moisés e
Jesus foram enviados por
Deus para ensinar a
verdade aos homens. Como
os Dez Mandamentos, o
Evangelho é a palavra de
Deus, mas os cristãos
teriam alterado o seu
sentido. (Págs. 322 a
325.)
174. No último discurso
que pronunciou em Meca,
pouco antes de sua
morte, Maomé aconselhou
seus seguidores a que
fossem humanos e justos,
guardando-se de cometer
injustiça, porque um dia
todos apareceremos
diante do Senhor e ele
pedirá contas de nossas
ações. (Pág. 325.)
175. Finalizando o
artigo sobre o grande
líder árabe, Kardec
reproduz o elogio que o
historiógrafo alemão G.
Weil fez, em sua obra
Mohammet der Prophet,
de Maomé e sua obra,
seguido de diversas
passagens textuais do
Alcorão, extraídas da
tradução de Savary.
(Págs. 325 a 337.)
176. Das suratas
selecionadas por Kardec,
eis algumas frases
marcantes que permitem
aquilatar o valor da
referida obra: “Deus não
exigirá de nós senão
conforme as nossas
forças.” “Jamais digas:
Farei isto amanhã, sem
acrescentar: se for a
vontade de Deus.” “Deus
exalta as boas obras,
mas pune rigorosamente o
celerado que trama
perfídias.” “Nada no céu
e na terra pode opor-se
às vontades do
Altíssimo.” “Jesus é
filho de Maria, enviado
do Altíssimo e seu
Verbo.” “Crede em Deus e
nos apóstolos; mas não
digais que há uma
trindade em Deus. Ele é
uno.” “Os que sustentam
a trindade de Deus são
blasfemos; há apenas um
só Deus.” “Se te
acusarem de imposturas,
responde-lhes: Tenho por
mim as minhas obras; que
as vossas falem em vosso
favor.” “Fazei prece,
dai esmolas; o bem que
fizerdes encontrareis
junto a Deus, pois ele
vê as vossas ações.”
“Para ser justificado
não basta virar o rosto
para o Oriente e para o
Ocidente; é preciso
ainda crer em Deus, no
juízo final, nos anjos,
no Alcorão, nos
profetas. É preciso pelo
amor de Deus socorrer o
próximo, os órfãos, os
pobres, os viajantes, os
cativos e os que
demandam.” “Se vosso
devedor tem dificuldade
em vos pagar,
perdoai-lhe o tempo; ou
se quiserdes fazer
melhor, perdoai-lhe a
dívida.” “A vingança
deve ser proporcional à
injúria; mas o homem
generoso que perdoa tem
sua recompensa
assegurada junto a Deus,
que odeia a violência.”
“Deus ama a
beneficência.” “Os
jardins do Éden serão a
habitação dos justos.”(Pág.
326 a 337.)
177. Reportando-se à
Sociedade Espírita de
Paris, Kardec diz que a
última sessão do ano,
antes das férias, foi
uma das mais notáveis
porque, pela primeira
vez, se verificou com o
Sr. Morin, médium da
Sociedade, um fenômeno
espontâneo de
sonambulismo mediúnico.
Havendo adormecido sob a
influência dos
Espíritos, ele falou
então com calor e
eloquência sobre um
assunto de alta
seriedade. Em outubro,
na reabertura das
sessões, repetiu-se o
fenômeno com dois outros
médiuns: a sra. C... e o
Sr. Vavasseur. Kardec
refere, na sequência, os
fatos que se deram
naquela oportunidade e
que muito o
impressionaram.
(Págs. 337 a 341.)
(Continua no próximo
número.)