Espíritos livres
Trocando ideias
com uma amiga
sobre a
reencarnação, e
como ela me
dirigisse certos
questionamentos,
imaginei depois
que tudo
acontece neste
sentido à moda
de uma imensa
gincana
evolutiva.
Nalgum momento
da nossa
permanência
naquela vida
mais real nos
reunimos com
orientadores e
certo número de
afetos e
interessados e
traçamos as
diretrizes.
Entendemos que
durante um tempo
permaneceremos
confinados, do
ponto de vista
consciencial e
perceptivo, para
aquela realidade
mais exata que,
aqui,
necessariamente,
nos escapa.
No filme
Nosso Lar, a
mãe terrena de
André Luiz, ao
afinal
encontrá-lo para
uma visita,
pronuncia
algumas das mais
belas palavras
de toda a
história, depois
de ser por ele
questionada com
insistência
sobre o
paradeiro de sua
esposa e família
da última
reencarnação, e
sobre quando
poderia voltar
para vê-los. Ela
revida, gentil e
graciosamente: –
André, você
quer mesmo ser
um Espírito
livre?
O que eu
comentava
exatamente com a
amiga do
trabalho versava
sobre isto.
Quando estamos
reencarnados,
somos dados a
alimentar um
tipo de
possessividade
exagerada para
com aqueles que
periodicamente
nos rodeiam, a
conta de filhos,
pais, amigos e
cônjuges.
Perguntava a ela
durante o nosso
diálogo se já
teria parado
para imaginar,
numa quantidade
hipotética de
umas
quatrocentas
reencarnações ao
longo dos
milênios – e
olha que este
número deve ser
modesto sem
considerarmos a
trajetória para
trás disso, a
partir de outros
mundos! –, com
quantas pessoas
já não teria
estabelecido
elos de
afetividade!
Quantas irmãs e
irmãos? Quantas
mães e pais?
Maridos,
esposas, primos
e primas,
amigos,
conhecidos.
Desafetos, com
quem se deve
rearmonizar
nalgum momento
forçoso?!
Inimigos
ferrenhos, a
conta de ônus
mais grave a
nalgum ponto da
trajetória ser
resolvido para a
devida
harmonização
espiritual dos
envolvidos...
Ouvindo-me, a
estimada amiga
esboçou um
sorriso de
entendimento,
provavelmente
surpreendendo-se,
mesmo naquele
ensaio de
imaginação, com
o número
certamente
incontável de
seres que a cada
um de nós são
vinculados por
laços maiores ou
menores de
afeição, ou por
diferenças
enraizadas num
passado de
convivência rico
de detalhes
agora
impossíveis de
se alcançar por
um esforço de
memória,
enquanto nesta
dimensão
material.
Então, passemos
a outra
reflexão, com
base nesta
verdade.
Imaginemo-nos
aqui, neste
momento, com
entes queridos e
vários
conhecimentos da
hora que passa,
tendo que, em
algum instante
futuro e certo,
retornar para os
nossos locais de
origem, por
sintonia de
ordem
espiritual.
Pensemos nesta
hora como se
estivéssemos
dentro de uma
antessala, à
espera, e em
situação de
despedida dos
nossos afetos,
que conviveram
conosco na
presente
trajetória
corpórea,
quando, de
repente, se nos
escancara à
visão espantada
um imenso portal
luminoso, dando
vista para uma
paisagem mais
brilhante quanto
bela, e vasta
para mais além,
de cuja
existência não
suspeitávamos há
apenas alguns
minutos!
Montanhas,
casas, ruas,
movimento
intenso.
Próximos ao
portal de
passagem,
divisamos também
dezenas de
rostos, dos
quais por ora
talvez, em
confusão, não
nos recordemos
da identidade.
Calculemos umas
trinta pessoas
sorridentes
vindo ao nosso
encontro e nos
recebendo, e nos
acolhendo para
nos conduzir em
segurança de
retorno ao nosso
lugar permanente
de vivências,
fora do qual as
estadias
terrenas, vistas
de cima, mais
parecem
estacatos
diminutos em
meio à imensa
sinfonia das
nossas vidas,
entoada através
dos séculos!
Uns trinta
rostos ainda é
cota diminuída,
perante a
extensão
incalculável dos
nossos caminhos
para trás,
através de um
ponto de
referência
aleatório a
partir da
antiguidade,
passando pela
Idade Média, o
renascentismo e
etapas mais
recentes. Mas
ali estão,
todos!
Acolhendo-nos
felizes, para a
nossa surpresa!
E, atrás de nós,
e para a nossa
momentânea dor,
permanecem um
tempo a mais na
matéria todos os
que, durante o
intervalo de
algumas décadas
vertiginosas,
foram a nossa
mais absoluta
referência de
existência, de
afetividade e de
dedicação: tios,
filhos,
cônjuges. Amigos
de convivência
profissional ou
de lazer. Umas
tantas outras
pessoas que
tanto dizem aos
nossos corações,
e que
resguardávamos à
conta de posse
de joias
valiosas, das
quais sequer
imaginávamos com
facilidade nos
apartear sem
experimentar uma
dor
insuportável! E
agora lá
estamos, naquele
limiar, diante
destas dezenas
de seres
importantes de
quem
temporariamente
nos separaremos
para ir de
encontro a
outros,
sorridentes,
mais lúcidos e
provavelmente
mais felizes,
que com amor nos
recebem para nos
conduzir ao
verdadeiro lar
na eternidade!
Para a condição
de Espíritos
livres, se
assim
admitirmos,
exercendo a
sabedoria no uso
do
livre-arbítrio
ao
gradativamente
compreendermos
que o amor
experimentado
por cada um
destes entes
queridos em nada
perde em cor,
brilho e
peculiaridades!
Cumprimos mais
uma gincana
terrena de
vivências de
apoio mútuo e
rearmonização,
para agora,
depois de tudo,
nos reunirmos
àqueles que nos
inspiravam e
assistiam do
lado invisível
da vida, no
interesse de nos
ajudar nos
instantes mais
críticos para
que não
perdêssemos o
foco dos nossos
propósitos nas
provas
sabidamente
críticas que nos
aguardariam! É
momento,
portanto, de
descansar. De se
refazer. De
reencontrar
amores
temporariamente
velados de
nossas
recordações, a
fim de que bem
cumpríssemos o
nosso período de
aprendizado na
esfera material.
De início, fase
talvez dolorosa,
na qual nos cabe
entender, com o
apoio destes
amigos, que os
que deixamos na
matéria se
refarão também
do sofrimento da
separação, para
eles
naturalmente
mais intenso
pelas condições
limitadas de
consciência nas
quais vivem; mas
que os
reencontraremos
um dia, assim
como com estes
outros nos
acontece agora.
Fato é, porém –
e disso nos
advirá a
compreensão
gradual – que a
nossa
possessividade
fora, talvez,
doentia. Que
somos de
antemão, como
afiançou a
personagem
adorável de
Nosso Lar,
Espíritos
livres, para
conviver
harmoniosamente
com os que nos
acompanham;
porém,
usufruindo a
qualquer tempo
de liberdade de
escolhas e de
caminhos para
com todos
acertar, ou nos
enganar nos
passos. Para
corrigir estes
enganos,
perdoar-se e
perdoar, e
rearmonizar.
Cultivar para
com cada um
níveis
diferentes de
afinidade, de
sintonia,
criando e
descobrindo, de
minuto para
minuto, novas
nuances
maravilhosas que
enriquecem e
renovam esta
rica
interatividade!
E, ao final de
cada gincana,
nos vem
naturalmente à
visão: não
possuímos e nem
pertencemos a
ninguém! Por
amor, apenas e
espontaneamente
permanecemos com
aqueles que
muito nos dizem
ao coração!