ANGÉLICA
REIS
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Londrina, Paraná
(Brasil) |
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A
Personalidade Humana
Fredrich
Myers
(Parte 39)
Damos
sequência ao estudo
metódico e sequencial do
livro A Personalidade
Humana, de Fredrich
W. H. Myers, cujo título
no original inglês é Human
Personality and
Its Survival of Bodily
Death.
Questões preliminares
A. Um tema inspira a
maior parte das
comunicações recebidas
pela médium Srta. Smith.
Que tema é esse?
É a doutrina da
reencarnação, que foi
compartilhada por vultos
como Platão e Virgílio,
embora Myers não
estivesse convencido
quanto à sua veracidade.
(A Personalidade Humana,
capítulo VIII – O
automatismo motor.)
B. É verdade que a Srta.
Smith declarou ter sido,
em existência anterior,
uma princesa indiana?
Sim. E essa encarnação
oferece, segundo Myers,
um problema linguístico
de um gênero algo
diverso, visto que ela
escreveu alguns
caracteres sânscritos e
pronunciou certas
palavras sânscritas,
misturadas, é certo, a
um jargão
quase-sânscrito e que
não ultrapassava o que a
boa memória pudesse
reter olhando, durante
algumas horas, uma
gramática sânscrita.
Hélène Smith, cuja
boa-fé é atestada em
todas as partes,
afirmou, porém, não ter
nunca consultado uma
gramática dessa língua.
(Obra citada. Capítulo
VIII – O automatismo
motor.)
C. A mediunidade da
Srta. Smith apresentava
fenômenos interessantes.
Mencione um deles que
seja realmente
expressivo.
A Srta. Smith viu certa
vez, numa sessão, um
lugarejo situado sobre
uma colina coberta de
vinhas e um ancião
vestido burguesmente que
descia a colina ao lado
de um caminho de pedras;
quando lhe perguntaram
os nomes do lugarejo e
do ancião, escreveu,
para o primeiro,
“Chessenaz” e para o
segundo “Chaumontet-Syndic”.
Dias depois viu o mesmo
senhor acompanhado de
outro que disse ser o
cura do lugarejo, cujo
nome escreveu: “Burniersalut”.
Das informações tomadas
a seguir, constatou-se
de fato que Chessenaz
era um lugarejo
desconhecido situado na
Alta Savoia, a 26
quilômetros de Genebra,
que um homem de nome
Jean-Chaumontet fora
síndico desse lugarejo
em 1838 e 1839 e um
homem de nome André
Burnier fora ali cura de
1824 a 1841. Os dois
nomes figuram num livro
de registro de
nascimentos. Além disso,
as assinaturas da Srta.
Smith assemelhavam-se
bastante às desses dois
personagens.
(Obra citada. Capítulo
VIII – O automatismo
motor.)
Texto para leitura
946. A doutrina da
reencarnação, ou das
vidas sucessivas,
inspira a maior parte
das comunicações
recebidas pela Srta.
Smith. O simples fato de
que Platão e Virgílio
compartilhassem dessa
doutrina demonstra que
não revela nada que
contrarie a melhor razão
e aos mais elevados
instintos do homem.
947. É certo que não é
fácil estabelecer uma
teoria que atribua a
criação direta dos
espíritos a fases tão
diversas de adiantamento
como aquelas em que
esses espíritos entram
na vida terrestre sob a
forma de homens mortais;
deve existir uma certa
continuidade, uma certa
forma de passado
espiritual. No momento,
não possuímos qualquer
prova a favor da
reencarnação e nosso
dever é mostrar que sua
confirmação num
determinado caso, o da
Srta. Smith, por
exemplo, constitui um
argumento a favor da
autossugestão mais do
que a inspiração
exterior.
948. Todas as vezes que
os homens civilizados
receberam o que
consideravam como uma
revelação dedicaram-se,
naturalmente, a
completá-la e a
sistematizá-la, na
medida do possível. Com
isto, almejavam três
fins:
a) compreender o maior
número possível de
mistérios do universo;
b) justificar, no que
fosse possível, a
conduta do Céu, com
respeito aos homens;
c) apropriar-se, no
possível, do benefício e
dos favores que os
crentes deveriam poder
retirar da revelação.
949. Por todas essas
razões, a doutrina da
reencarnação teve muito
apoio em mais de um país
e época. Mas em caso
algum parecia alcançar a
sua finalidade como na
revelação (por assim
dizer) através da
escrita automática. Para
citar um exemplo
histórico, um vigoroso
pregador da nova fé,
conhecido pelo nome de
Allan Kardec, retomou a
doutrina da
reencarnação,
substituindo-a (segundo
o que é passível de
crédito) pela sugestão
extrema exercida sobre o
espírito de diferentes
escritores automáticos e
a expõe em obras
dogmáticas que exerceram
enorme influência,
principalmente nas
nações latinas, graças à
sua clareza, sua
simetria e seu
intrínseco bom-senso.
Mas os dados compilados
eram totalmente
insuficientes e O
Livro dos Espíritos
deve ser considerado
como um ensaio prematuro
para formular uma nova
religião, para
sistematizar uma ciência
nascente.
950. Acredito,
juntamente com Flournoy,
que o estudo dessa obra
deve ter influenciado,
diretamente ou não, o
espírito da Srta. Smith,
nela provocando a crença
nas encarnações
anteriores ao seu
destino e às suas atuais
sensações.
951. De modo geral, cada
encarnação, tendo sido a
última bem empregada,
constitui um certo
progresso na existência
geral do ser. Se uma
vida terrestre foi
desperdiçada, a vida
terrestre seguinte pode
vir a ser a
possibilidade de uma
expiação ou do exercício
mais amplo de uma
virtude especial que não
foi adquirida, senão de
uma forma imperfeita.
Dessa forma, a vida
atual da Srta. Smith,
numa posição bem
humilde, pode ser
considerada como uma
expiação pelo excesso de
orgulho de que dera
mostra na sua última
encarnação, quando foi
Maria Antonieta.
952. Mas esta menção
concernente a Maria
Antonieta nos coloca no
caminho do risco que faz
correr essa teoria,
favorecendo as
pretensões dos sujeitos
de descender de uma
linhagem ilustre de
antepassados
espirituais. Pitágoras
pretendia que seu eu
passado encarnara num
herói secundário,
Euforbo. Em nossos dias,
Anna Kingland e Edward
Maitland pretendiam ter
sido nada menos que a
Virgem Maria e São João
Batista. E Victor Hugo,
deveras inclinado a
essas
automultiplicações, se
apoderou da maioria dos
personagens importantes
da antiguidade que pode
relacionar entre si,
cronologicamente.
953. Em cada caso, a
personificação apresenta
notáveis rasgos; mas
também em cada caso,
basta uma análise mais
ou menos atenta para
afastar a ideia de que
nos encontramos na
presença de uma
personalidade que
realmente viveu numa
época anterior, habitou
outro planeta, fazer-nos
ver através desses fatos
os efeitos da
“criptomnésia” (palavra
pela qual Flournoy
define a memória
subliminar) e desta
capacidade inventiva
subliminar que já nos é
deveras conhecida.
954. Flournoy não foi o
primeiro a se ocupar da
Srta. Smith. Antes dele,
Lefébure, de Genebra,
publicou sobre o mesmo
tema nos Annales des
Sciences Psychiques,
março-abril de 1897 e
maio-junho de 1897,
artigos nos quais se
esforçava por provar o
caráter supranormal da
capacidade da Srta.
Smith, a qual
acreditava-se realmente
tomada por espíritos e
admitia a realidade de
suas encarnações
anteriores, como de sua
linguagem extraterrena
ou marciana.
955. Após a leitura de
seus artigos, deixei-os
de lado por se mostrarem
pouco concludentes,
especialmente por causa
das considerações sobre
a linguagem, à qual
Lefébure parecia
especialmente inclinado,
considerações que me
soaram falsas até o
ponto de despertar
dúvida sobre todos os
argumentos formulados,
por um autor que era
capaz de acreditar que
os habitantes de outros
planetas falavam uma
língua semelhante ao
idioma francês e era
formada por palavras
como quisa por quel,
quisé por quelle,
vétèche por voir, vèche
por vu, verdadeiras
expressões do fantástico
infantil.
956. Como prova da
consistência e realidade
da linguagem
extraterrestre, Lefébure
cita o seguinte fato:
“Uma das primeiras que
tivemos, métiche, que
significa monsieur, é,
mais tarde, encontrada
com o sentido de homme”.
Isto é, através de uma
ingênua imitação do
idioma francês, Hélène,
após transformar
monsieur em métiche,
mudou les messieurs em
cée métiché. E o autor
reconheceu que essa
língua surgiu
independentemente de
todas as influências que
formaram a gramática
terrestre em geral e o
idioma francês em
particular!
957. Depois que Flournoy
refutou esse absurdo, vi
que os jornais falavam
dessa língua marciana
como de um assombroso
fenômeno! Pareciam
acreditar que se a
evolução de outro
planeta resultou no
aparecimento da vida
consciente, esta vida
consciente devia ser de
modo a nos proporcionar,
sem dificuldades, que
nela entremos trazendo
na mão um livro de
Ollendorff de
conversação: “eni cee
metiché oné quedé – aqui
os homens são bons”,
etc.
958. Para quem estudou o
automatismo, isto sugere
a ideia irresistível de
um trabalho subliminar
realizado pelo próprio
sujeito. É um caso de
“glossolália”, e nós
desconhecemos qualquer
caso mais recente, desde
o caso semimístico dos
Milagres de Cevennes,
onde um linguajar desse
gênero nada mais é do
que um jargão
ininteligível.
959. Tive em minhas mãos
diversos escritos
hieróglifos, realizados
automaticamente,
acreditando que
representavam a escrita
japonesa ou a de um
antigo dialeto do norte
da China; mas os
técnicos não avisados,
aos quais submeti esses
escritos, mostraram-me,
rapidamente, que se
tratava de vagas
recordações de
parágrafos que
enfeitavam as bandejas
de chá vindas do
oriente.
960. Parece-me
totalmente impossível
que um cérebro possa
receber,
telepaticamente,
qualquer fragmento de
uma língua que não
aprendeu. Pode-se dizer,
de maneira geral, que
tudo o que é elaborado,
completo, audaz, parece
obra subliminar;
enquanto que tudo o que
provém do exterior é
fragmentado, confuso e
tímido.
961. A particularidade
mais interessante do
idioma marciano é sua
formação exclusivamente
francesa; o que provaria
ter sido elaborado por
um espírito
familiarizado com o
idioma francês. Mas a
Srta. Smith está longe
de ser poliglota;
recebera, quando
criança, algumas aulas
de alemão, o que nos
induziria à curiosa
suposição de que o
idioma marciano foi
inventado por algum
elemento de sua
personalidade, anterior
às lições de alemão.
962. Disse Flournoy (p.
45): “O fato da natureza
primitiva das diversas
elucubrações hipnoidais
da Srta. Smith e as
diferentes etapas da
vida às quais pertencem
parecem-me constituir os
pontos psicológicos mais
interessantes de sua
mediunidade, no que
tende a mostrar que
essas personalidades
secundárias são
provavelmente, quanto à
sua origem e, ao menos
em parte, fenômenos de
reversão, relacionados à
personalidade comum,
sobrevivências ou
retornos momentâneos a
fases inferiores
superadas após um tempo,
mais ou menos longo, e
que, normalmente,
deveriam ter sido
absorvidas pelo
desenvolvimento do
indivíduo, ao invés de
se manifestar
exteriormente através de
estranhas proliferações.
Da mesma forma que a
teratologia esclarece a
embriologia, que, por
sua vez, explica a
teratologia, e ambas,
reunidas por sua vez
esclarecem a anatomia,
igualmente, se pode
esperar que o estudo do
mediunismo nos
proporcionará uma clara
e fecunda noção no que
concerne à psicogênese
normal, que, por sua
vez, nos permitirá
compreender melhor as
aparências desses
fenômenos singulares; de
forma que, finalmente, a
psicologia terá um
conceito melhor e mais
exato da personalidade
humana”.
963. A capacidade a que
nos referimos, a de
evocar estados
emocionais há muito
desaparecidos, parece-me
eminentemente
característica do gênio
poético e artístico. O
artista deve aspirar a
viver no passado com
maior intensidade do que
no presente, a novamente
sentir o que em outras
ocasiões sentiu e,
inclusive, a voltar a
ver o que já vira. As
recordações visuais e
auditivas ativadas na
sua totalidade se
convertem em alucinações
visuais e auditivas; e
este ponto de absoluta
alucinação poucos
artistas desejam ou
podem atingir. Mas a
memória emocional e
afetiva pode, em algumas
naturezas privilegiadas,
readquirir toda a sua
antiga clareza, em
benefício da arte; e
inclusive, quando o
próprio homem já é capaz
de sentir as emoções que
voltam (semelhantes
nisto a certas
imagens-lembranças
óticas), podem superar
as emoções originais.
964. Uma das encarnações
anteriores de Srta.
Smith foi a de uma
princesa indiana, e essa
encarnação oferece um
problema linguístico de
um gênero algo diverso.
Escreveu alguns
caracteres sânscritos,
pronunciou certas
palavras sânscritas,
misturadas, é certo, a
um jargão
quase-sânscrito e que
não ultrapassava o que a
boa memória pudesse
reter olhando, durante
algumas horas, uma
gramática sânscrita.
Porém, Hélène, cuja
boa-fé é atestada em
todas as partes, afirma
não ter nunca consultado
uma gramática dessa
língua.
965. Por outro lado, as
minuciosas investigações
realizadas por Flournoy
sobre os incidentes da
história ou
pseudo-história hindu,
nos quais está baseado o
relato dessa encarnação,
fazem parte de uma
passagem de um livro
raro e esgotado de
Marlès sobre a Índia,
livro que a Srta. Smith
afirma jamais ter visto,
coisa que nos parece
bastante provável. Esse
conhecimento se
manifesta de modo a
indicar uma grande
familiaridade com as
coisas do oriente, e os
sons e os gestos quase
indianos são empregados
com grande
verossimilhança.
966. Nos fatos citados,
esse problema se
encontra reduzido à sua
forma mais simples; e
vou formular aqui, o
mais breve possível, uma
teoria que Flournoy não
usou. Estou de acordo
com ele em considerar
fantástica toda a novela
hindu. Mas não tiro a
conclusão de que a Srta.
Smith viu, sem ter
consciência disso, a
História de Marlès e uma
gramática sânscrita e
considero como provável
que os fatos que o livro
de Marlès e a gramática
comportam tenham chegado
a seu conhecimento por
clarividência, através
de seu eu subliminar.
967. Passo dessas
novelas
reencarnacionistas para
certos fenômenos
menores, mas igualmente
interessantes, que
Flournoy chama
automatismos
teleológicos. “Certo dia
– diz Flournoy (pág. 55)
– em que a Srta. Smith
se propunha a descer um
objeto grande e pesado
de uma estante alta, não
o pôde fazer, pois ficou
com o braço no ar
durante alguns segundos,
como que petrificada e
incapaz de se
movimentar. Considerou
aquele fato como uma
advertência e desistiu
de seu intento. Numa
sessão ulterior, Leopold
confirmou que fora ele
quem a impedira de
alcançar o objeto,
porque era demasiado
pesado para ela e
ter-lhe-ia causado algum
acidente. Numa outra
oportunidade, um
vendedor que procurava,
em vão, uma amostra,
perguntou a Hélène se
sabia onde teria ido
parar. Mecanicamente, e
sem refletir, ela disse
que a enviaram a M. J.
(diante da casa). No
mesmo instante, viu
traçado sobre o assoalho
o número 18 e
acrescentou
inconscientemente: “há
dezoito dias”. Aquilo
era totalmente
improvável, mas resultou
exato. Leopold não se
recordava desse fato e
não parece ter sido o
autor desse automatismo
criptomnésico.”
968. A Srta. Smith viu
também a aparição de
Leopold, que lhe vedava
um caminho que se
propunha seguir e isto
em circunstâncias tais
que se houvesse tomado
aquele caminho é
provável que viesse a se
arrepender.
969. A questão seguinte
é saber se uma
capacidade supranormal
qualquer se manifesta
nos fenômenos que nos
apresenta o caso da
Srta. Smith. Parece
existir nele um certo
grau de telepatia, como
na sessão em que viu um
lugarejo situado sobre
uma colina coberta de
vinhas e um ancião
vestido burguesmente que
descia a colina ao lado
de um caminho de pedras;
quando lhe perguntaram
os nomes do lugarejo e
do ancião, escreveu,
para o primeiro,
“Chessenaz” e para o
segundo “Chaumontet-Syndic”;
dias depois viu o mesmo
senhor acompanhado de
outro que disse ser o
cura do lugarejo, cujo
nome escreveu: “Burniersalut”.
Das informações tomadas
a seguir, constatou-se
que Chessenaz é um
lugarejo desconhecido
situado na Alta Savoia,
a 26 quilômetros de
Genebra, que um homem de
nome Jean-Chaumontet foi
síndico desse lugarejo
em 1838 e 1839 e um
homem de nome André
Burnier foi cura de 1824
a 1841. Os dois nomes
figuram num livro de
registro de nascimentos
e as assinaturas da
Srta. Smith
assemelham-se bastante
às desses dois
personagens.
(Continua no próximo
número.)