MARCELO BORELA DE
OLIVEIRA
mbo_imortal@yahoo.com.br
Londrina, Paraná
(Brasil) |
|
E a Vida Continua...
André Luiz
(Parte
24)
Continuamos nesta edição
o
estudo da obra
E a Vida Continua,
de André Luiz,
psicografada pelo médium
Francisco Cândido Xavier
e
publicada em 1968 pela
Federação Espírita
Brasileira.
Questões preliminares
A. Em face da morte
corpórea de Elisa, que
fez Desidério?
Jungido à falecida pela
força dos últimos
desejos que ela mesma
enunciara, Desidério,
inflamado em labaredas
de ódio, retivera-lhe
uma das mãos na destra
rude, impedindo-lhe a
retirada. Elisa, apesar
de semi-inconsciente,
percebeu que se achava
presa a ele e algemada
ao corpo físico, a ouvir
o desventurado
companheiro dizendo,
convicto, que jamais a
deixaria. O fato
estabeleceu enorme
dificuldade à liberação
de Elisa e sua
internação em
instituição adequada no
plano espiritual.
(E a Vida Continua, cap.
23, pp. 198 e 199.)
B. Que atitude foi
tomada pelos benfeitores
espirituais em face da
decisão de Desidério,
que não permitia que
Elisa fosse levada?
O protetor espiritual
incumbido de liberá-la
dos despojos físicos
estava indeciso, porque,
se constrangesse Elisa a
largar o corpo, não
lograria violentar-lhe o
pensamento perfeitamente
lúcido. Forçar-lhe-ia a
retirada, mas não
dispunha de meios para
isolá-la mentalmente do
companheiro rebelde. Era
preciso, pois, a
intervenção de alguém
com poder de persuasão
para compelir Desidério
a mudar de atitude.
Decidiu-se então que
chegara o momento para a
intervenção pessoal de
Evelina, a quem
Desidério, que fora seu
pai, muito amava.
(Obra citada, cap. 24,
pp. 200 e 201.)
C. Quando Evelina
penetrou o recinto e foi
vista por Desidério,
qual foi a reação dele?
Aterrado, Desidério
fixou a aparição e caiu
de joelhos! Era ela, sim
– pensou ele –, a sua
filha, a sua amada filha
que jamais lhe escapara
da lembrança, mesmo
quando estivera
mergulhado em aventuras
nas trevas mais densas!
À medida que Evelina o
fitava, entremostrando
radiante e doce ternura,
o infortunado genitor
contemplou-se no suave
clarão que a mensageira
irradiava e viu-se na
penúria de um
sentenciado que
persistisse, por anos e
anos, no fundo de um
cárcere, sem o menor
cuidado para consigo
mesmo. Qualificou-se por
monstro, à frente de um
anjo, e, à maneira de um
cão batido e aviltado,
intentou arrastar-se
para fugir...
(Obra citada, cap. 24,
pp. 201 a 203.)
Texto para leitura
93. Elisa morre
- Ante a interpelação de
Desidério, Ernesto
respondeu: "Desidério,
no mundo físico,
trabalhamos
particularmente com a
matéria pesada e
transfiguramos pedras,
metais, glebas,
fontes... Aqui na
Espiritualidade,
lidamos, de modo
especial, com as forças
do espírito e renovamos
almas e consciências, a
começar de nós mesmos...
Atenda-me!... Lembre-se
de que Elisa possui
muitos amigos para
requisitá-la aos Planos
Superiores, como os teve
a sua querida
Evelina!... Por amor de
Evelina, que você guarda
na memória, à feição de
um gênio tutelar, não
quererá você sublimar
atitudes, principiando
pelo perdão que
imploramos e
carecemos?!..."
Desidério respondeu,
chorando muito, que não
poderia imiscuir Evelina
naquela conversação,
pois ela deveria habitar
na casa dos anjos.
Ernesto indagou-lhe,
então: "E se ela própria
vier, um dia, ao seu
encontro para advogar
nossa causa,
amparar-nos, rogar a sua
misericórdia de credor
para nós outros, os seus
devedores?" Desidério
não pôde responder,
porque nesse instante um
assistente espiritual do
sanatório veio até os
dois para notificar que
Elisa havia caído em
funda prostração, ante
a ruptura de delicado
vaso cerebral,
prenunciando-se-lhe a
desencarnação para
breves horas. Ambos
partiram, assim, para o
socorro à enferma, e o
mesmo fizeram Vera e
Caio Serpa, encontrando
Elisa agonizante, em
ambiente de
tranquilidade e carinho.
O médico amigo avisara
que nada mais podia
fazer, senão aguardar.
Vera, em soluços,
ajoelhou aos pés de sua
mãe. Caio, evidentemente
contrafeito, contemplava
a cena, fumando sem
parar. Enfermeiros iam e
vinham e auxiliares
espirituais formavam
cadeias magnéticas de
apoio a Elisa, de modo
que seu trânsito de um
mundo para outro lhe
fosse mais rápido e
menos intranquilo.
Desidério, porém, se
plantou à cabeceira,
imerso em revolta e
desespero. Sobrevindo a
madrugada, Elisa abriu
as pálpebras e tentou
fixar os olhos na filha,
para endereçar-lhe a
inexpressável despedida;
no entanto, descortinou
a presença do genro,
que a fitava, e, embora
incapaz de nutrir
quaisquer resquícios de
ódio, cerrou o coração
em densa nuvem de mágoa,
pedindo mentalmente a
Desidério que a
defendesse. Bastou tal
pensamento e Desidério
colou-se a ela, dando a
ideia de quem lhe sorvia
todas as forças. Vera,
pressentindo que a
genitora se rendia à
morte, procurou debalde
reanimá-la, suplicando:
"Mãe! Mãe!... Minha
mãe!..." Mas Elisa
Fantini pendeu a cabeça
nos travesseiros,
enquanto o corpo se lhe
imobilizava para sempre.
(Cap. 23, pp. 195 a
197)
94. Desidério
agarra-se à falecida
- Na enfermaria do
sanatório caíra o pano
da morte sobre aquela
existência, fértil de
tribulações e problemas
na ribalta do mundo;
todavia, por trás dos
bastidores, na esfera
espiritual, o drama não
terminara. Jungido à
falecida pela força dos
últimos desejos que ela
mesma enunciara,
Desidério, inflamado em
labaredas de ódio,
retivera-lhe uma das
mãos na destra rude,
impedindo-lhe a
retirada. Elisa, apesar
de semi-inconsciente,
percebeu que se achava
presa a ele e algemada
ao corpo físico, a ouvir
o desventurado
companheiro dizendo,
convicto, que jamais a
deixaria... O
acontecimento oferece a
todos nós uma lição
inolvidável: em meio às
vicissitudes da
experiência humana, é
preciso aprender a
tolerar e perdoar
sempre. "Por mais se vos
fira ou calunie, injurie
ou amaldiçoe, olvidai o
mal, fazendo o bem!...",
propõe-nos o autor da
obra. "Vós que tivestes
a confiança traída ou o
espírito dilacerado nas
armadilhas da sombra –
recomenda André Luiz –,
acendei a luz do amor
onde estiverdes!...
Companheiros que fostes
vilipendiados ou
insultados em vossas
intenções mais sublimes,
apagai as ofensas
recebidas e bendizei os
ultrajes que vos burilam
o coração para a Vida
Maior!... Irmãs que
padecestes
indescritíveis agravos
na própria carne,
desprezadas pelos
carrascos risonhos que
vos enlouqueceram de
angústia, depois de vos
acenarem com mentirosas
promessas, abençoai
aqueles que vos
destruíram os sonhos!...
Mães solteiras que
fostes banidas do lar e
batidas até a queda na
prostituição, por
haverdes tido suficiente
coragem de não
assassinar no próprio
ventre os filhos de
vossa desventura, com a
insânia do aborto
provocado, mães
agoniadas às quais
tantas vezes se nega até
mesmo o direito de
defesa, conferido aos
nossos irmãos criminosos
nas cadeias públicas,
perdoai os vossos
algozes!... Pais que
trazeis nos ombros
escalavrados de
sofrimento a carga
dolorosa dos filhos
ingratos, filhos que
aguentais na carne e na
alma o despotismo e a
brutalidade de pais
insensíveis e cônjuges
flechados entre as
paredes domésticas pelos
estiletes da
incompreensão e da
crueldade, absolvei-vos
uns aos outros!...
Obsidiados de todos os
climas, tecei véus de
piedade e esperança
sobre os seres
infelizes, encarnados ou
desencarnados, que vos
torturam as horas!
Criaturas prejudicadas
ou perseguidas de todos
os recantos do mundo,
perdoai a quantos se
fizeram instrumentos de
vossas aflições e de
vossas lágrimas!...
Quando sentirdes a
tentação de revidar,
lembrai-vos daquele que
nos concitou a amar os
inimigos e a orar pelos
que nos perseguem e
caluniam! Recordai o
Cristo de Deus,
preferindo ser condenado
a condenar, porque, em
verdade, quantos
praticam o mal não sabem
o que fazem!...
Convencei-vos de que as
leis da morte não
excetuam ninguém e não
vos esqueçais de que, no
dia do vosso grande
adeus aos que ficarem na
estância das provas,
somente pela bênção da
paz e do amor na
consciência tranquila é
que podereis alcançar a
suspirada
libertação!..." (Cap.
23, pp. 198 e 199)
95. Desidério não
permite que Elisa se vá
- Antes que o Sol
reaparecesse, Ernesto e
Evelina, acompanhados de
amigos do Instituto de
Proteção Espiritual,
chegaram ao recinto,
para a libertação de
Elisa. O cadáver fora,
então, removido para a
casa de Vila Mariana.
Evelina, que veria seu
pai pela primeira vez,
tinha o coração agitado,
mas Ernesto a
encorajava. Sob as
atenções de Vera Celina
e guardada pela
vigilância de vários
benfeitores espirituais,
Elisa, semidesperta,
jazia no impasse, uma
vez que agarrada por
Desidério por uma das
mãos, e alentada pelas
forças dele, parecia
comprazer-se com a
estranha hipnose. O
protetor espiritual
incumbido de liberá-la
dos despojos físicos
estava indeciso, porque,
se constrangesse Elisa a
largar o corpo, não
lograria violentar-lhe o
pensamento
perfeitamente lúcido.
Forçar-lhe-ia a
retirada, mas não
dispunha de meios para
isolá-la mentalmente do
companheiro rebelde. Era
preciso, pois, a
intervenção de alguém
com poder de persuasão
para compelir Desidério
a mudar de atitude.
Irmão Plotino, que
chefiava a caravana
socorrista, abeirou-se
dele com delicadeza
fraternal e suplicou-lhe
o concurso para que
Elisa fosse liberada e
conduzida a mansões de
refazimento. Acomodado
ao pé da morta,
Desidério se achegou
ainda mais para ela e
rugiu em voz selvagem:
"Palhaços!... Não me
tirarão daqui... Que
querem nesta casa? Ela é
minha mulher... Ninguém
me demoverá com
petitórios e ladainhas.
Tenho experiência!
Conheço os que não se
separam nas furnas
tenebrosas que
recebemos por
moradias... Ninguém, mas
efetivamente ninguém, me
arrancará desta
sala!..." Plotino
disse-lhe que Deus faria
isso, mas Desidério, ao
ouvir esse nome,
trovejou uma blasfêmia
terrível que fez com que
Plotino voltasse aos
companheiros, então
situados fora da casa, e
explicasse que chegara o
momento para a
intervenção pessoal de
Evelina. (Cap. 24, pp.
200 e 201)
96. Evelina
realiza o sonho de uma
vida inteira -
Todo o grupo uniu-se em
oração, para apoiar os
esforços de Evelina, que
entraria sozinha no
refúgio doméstico, para
tentar a renovação de
seu pai. Viu-se, então,
desde logo o prodígio
dos pensamentos
congregados em um só
objetivo. Projetando as
energias do amor na obra
socorrista, aqueles
corações em prece
lançaram vasto lençol de
safirina luz sobre a
porta da entrada,
fortalecendo a
companheira para a
abençoada missão que lhe
fora delegada. Evelina
penetrou, desse modo, o
recinto como se fora uma
estrela repentinamente
transfigurada em mulher.
Aterrado, Desidério
fixou a aparição e caiu
de joelhos! Era ela, sim
– pensou ele –, a sua
filha, a sua amada filha
que jamais lhe escapara
da lembrança, mesmo
quando estivera
mergulhado em aventuras
nas trevas mais densas!
À medida que Evelina o
fitava, entremostrando
radiante e doce ternura,
o infortunado genitor
contemplou-se no suave
clarão que a mensageira
irradiava e viu-se na
penúria de um
sentenciado que
persistisse, por anos e
anos, no fundo de um
cárcere, sem o menor
cuidado para consigo
mesmo. Qualificou-se por
monstro, à frente de um
anjo, e, à maneira de um
cão batido e aviltado,
intentou arrastar-se
para fugir... Evelina
adivinhou-lhe o
pensamento e falou,
simples: "Meu pai!..."
Desidério sentiu que
aquela voz lhe alcançava
as entranhas... Sim,
aquelas duas palavras
lhe vinham daquela alma
querida que ele julgara
nunca descesse do Céu
para interpelá-lo.
Tornando a fletir os
joelhos trêmulos, o
assombro se lhe rebentou
no peito, numa explosão
de lágrimas, e ele
balbuciou: "Pois é você,
minha filha, é você a
quem Deus manda para me
pedir o impossível?"
Evelina abeirou-se dele,
colocou-lhe a destra na
fronte padecente, e teve
início, então, um
comovente diálogo com
que a jovem sonhara a
vida inteira. (Cap. 24,
pp. 201 a 203)
(Continua na próxima
semana.)