Sandra Mussi:
“Posso dizer que
o Espiritismo é
a bússola que me
leva ao encontro
de Deus”
Ex-presidente
do Conselho
Espírita
Canadense,
Sandra fala
sobre as origens
e a atualidade
do movimento
espírita no
Canadá
 |
Nossa
entrevistada
desta semana é Sandra
Nazaré Almeida
Gonczarowska
Mussi (foto),
mais conhecida
no meio espírita
como Sandra
Mussi, uma
entusiasta
trabalhadora da
Doutrina
Espírita nascida
no Rio de
Janeiro (Brasil)
e que reside
presentemente em
Toronto, capital
da província de
Ontário, no
Canadá.
Sandra conheceu
o Espiritismo em
Brasília-DF no
ano de 1988,
quando
passou a
frequentar a
Comunhão
Espírita de
Brasília. Esteve
no Canadá pela
primeira vez em
1983 e ali
permaneceu até
1985. Retornou
àquele país em
1990 e, a partir
de 1996, passou
a frequentar o
|
Centro Espírita Joanna de
Ângelis, em
Toronto.
|
Atualmente,
Sandra, que foi
até recentemente
presidente do
Conselho
Espírita
Canadense, órgão
vinculado ao CEI
- Conselho
Espírita
Internacional, é
Coordenadora
Doutrinária do
TSS - Toronto
Spiritist
Society, uma
sociedade
espírita que ela
ajudou a fundar
em agosto de
2010, da qual
seu esposo, José
Mauro Mussi, é o
presidente.
*
Que motivo a
levou a fixar
residência no
Canadá?
Viemos para o
Canadá em 1990
como imigrantes,
mas antes disso
já tínhamos
morado aqui por
dois anos,
quando meu
marido veio
fazer o mestrado
em Engenharia de
Computação na
Universidade de
Waterloo, isso
em 1983.
Tornamo-nos
então cidadãos
canadenses em
1993.
Qual é sua
formação
escolar?
Sou psicóloga
com formação
universitária no
Brasil. No
Canadá trabalho
como
psicoterapeuta,
com a
especialização
em CBE - Core
Belief
Engineering -
Engenharia das
Crenças Básicas
e Brief
Narrative
Therapy -
Terapia de
Narrativa Breve.
Que funções você
já exerceu no
movimento
espírita?
Iniciei meus
trabalhos
espíritas ainda
em Brasília. No
Canadá, no Grupo
Joanna de
Ângelis, fui
diretora do
Conselho de
Administração,
depois fui
responsável pela
implementação e
direção do
trabalho de
Atendimento
Fraterno e
presidente do
Conselho
Espírita
Canadense. No
Centro que
fundamos ano
passado, o TSS -
Toronto
Spiritist
Society, sou a
Coordenadora
Doutrinária.
Quando você teve
seu primeiro
contacto com o
Espiritismo?
Foi em 1988, em
Brasília-DF.
Houve algum fato
ou circunstância
especial que
tenha propiciado
esse contacto?
A desencarnação
de meu pai.
Minha dor era
imensa. Não
conseguia
entender esse
sofrimento e
busquei consolo
na Igreja São
Judas Tadeu em
Brasília para
restaurar meu
equilíbrio. Eu
ia à igreja
todos os dias e
rezava, rezava,
mas não
conseguia ouvir
a voz de Deus,
pois minha mente
estava cheia de
ruídos. Buscava
uma razão que me
fizesse
compreender o
sofrimento e o
porquê da vida e
da morte. Essas
razões me vieram
com o
conhecimento da
Doutrina
Espírita, a
Doutrina do
esclarecimento,
onde nossa fé é
raciocinada,
esclarecida, e
assim consegui
as « razões » de
minha dor e do
meu sofrimento.
Qual foi a
reação de sua
família?
De aceitação e
curiosidade, mas
acima de tudo de
apoio.
Dos três
aspectos do
Espiritismo -
ciência,
filosofia,
religião - qual
o que mais a
atrai?
Como psicóloga e
entusiasta no
aprendizado dos
relacionamentos,
encontrei no
Espiritismo
fundamentos que
vão além dos
relacionamentos
interpessoais. O
Espiritismo é
uma filosofia em
um campo de
estudo
científico que
estuda o
relacionamento
entre o mundo
físico e o mundo
espiritual. Como
religião e
filosofia, o
Espiritismo
estuda ainda as
implicações
morais de tais
relacionamentos.
Fica difícil
para mim separar
um aspecto que
mais me atrai,
pois acredito
que são todos
inter-relacionados
e é aí que se
encontra todo o
brilhantismo e a
beleza do
Espiritismo.
Que autores
espíritas mais
lhe agradam?
Allan Kardec, o
nosso
Codificador,
Léon Denis,
Chico Xavier,
Yvonne Pereira,
Francisco do
Espírito Santo
Neto, Divaldo
Franco, Zalmino
Zimmermann,
Adenáuer Novaes,
Richard
Simonetti, J.
Herculano Pires,
Hermínio C.
Miranda, entre
outros.
Existe algum
livro em
especial que
você considere
como seu
preferido?
Sim. Meu livro
preferido é
«Paulo e
Estêvão», de
Emmanuel/Chico
Xavier. É ele um
livro com uma
riqueza de
detalhes que nos
levam mais perto
de Jesus através
do amor e do
perdão, dando
uma luz e uma
cor ao Evangelho
que muito nos
ajudam em nosso
crescimento
moral cristão.
Como vê a
discussão em
torno do aborto?
Como no Canadá
esse assunto é
tratado?
Acredito que a
vida é a
manifestação de
Deus. Tirar uma
vida é,
portanto, ir
contra a Lei de
Deus. Penso que
os espíritas no
Brasil já fazem
um trabalho
importante de
proteção à vida,
presentes no
Congresso
Nacional e na
mídia, educando
o povo e os
dirigentes
nacionais do
grave erro que é
o aborto.
Para mim este
assunto
reflete-se mais
no âmbito moral
do indivíduo do
que no legal.
Como espírita,
aceito a
importância do
livre-arbítrio e
da necessidade
de sermos
responsáveis
pelos nossos
atos. Rezo pelo
dia em que as
condições
sociais e
emocionais das
mulheres
permitam a elas
a verdadeira
liberdade de
decisão.
No Canadá o
aborto não é
crime, apesar de
haver certas
condições que
limitem o seu
uso. Em geral,
as mulheres têm
acesso a
serviços de
orientação
médica e de
aconselhamento
onde são
expressadas as
alternativas ao
aborto, como,
por exemplo, a
adoção. Se após
essa série de
entrevistas a
mulher ainda
deseja
prosseguir no
ato, só então o
aborto é
realizado e pago
pelo health
care do
Governo…
Infelizmente
isso não
significa que o
número de aborto
seja pequeno.
Você tem contato
frequente com o
movimento
espírita
brasileiro?
Sim, tenho
contacto com o
movimento do
Brasil e me
sinto muito
honrada ao
participar dos
eventos quando
em visitas ao
Brasil, mais
especificamente
a Brasília. Na
Comunhão
Espírita de
Brasília não
deixo de
assistir às
palestras,
especialmente da
querida Mayse
Braga. Na FEB
sou recebida com
carinho por
todos que estão
sempre
disponíveis e
abertos e com
muita paciência
em lidar com
minha grande
curiosidade.
Quando lá estou
me sinto como se
tivesse
retornando à
casa amada e
revendo minha
grande família
espírita,
tamanha é a
comunhão e a
sintonia que
tenho com todos
eles.
Vejo que o
movimento
espírita
brasileiro é bem
atuante. Fico
extremamente
feliz ao ver que
já chegou às
Universidades
com estudantes
defendendo teses
de mestrado e
conduzindo
pesquisas
acadêmicas a
partir das obras
de Chico Xavier,
bem como ao
Congresso
Nacional, como
tive a honra de
presenciar no
ano passado,
quando das
homenagens
feitas no
Congresso ao
nosso querido
Chico Xavier.
Para mim isso
tudo é incrível!
Acredito que
Kardec deve
sorrir ao ver
quanto o Brasil
já conquistou e
quanto os
espíritas
brasileiros se
comprometem com
a Doutrina na
forma mais
simples e
eficiente.
Acredito que
devemos também
sair um pouco do
assistencialismo
e nos dedicarmos
mais a estudos
profundos e a
uma continuidade
dos trabalhos de
Kardec.
Fale-nos um
pouco sobre
movimento
espírita
canadense. Como
ele se originou
e como se
apresenta hoje
em dia?
O movimento
espírita no
Canadá começou
no século XIX.
Encontramos
referências
feitas pelo
próprio Kardec
em Instruções ao
Movimento
Espírita, onde
ele comenta que
em apenas alguns
meses de
existência a
Revista Espírita
já tinha
assinantes no
Canadá. No
começo do século
XX, no discurso
de Sir Arthur
Conan Doyle ao
Congresso
Espírita de
Paris em 1925,
ele relata sua
viagem ao Canadá
e suas palestras
de divulgação do
Espiritismo em
Vancouver,
Montreal, Ottawa
e Toronto.
Apenas mais
recentemente
encontramos
registros da
criação dos
primeiros
Centros
Espíritas no
Canadá. Em 1970,
na cidade de
Montreal,
existiu um grupo
Espirita de nome
Circle Spirite
Quebecois,
formado
exclusivamente
por canadenses.
Esse grupo
continuou em
funcionamento
até 1979. Mais
tarde e também
na cidade de
Montreal, o
Centro Espírita
Mensageiros de
Luz e Paz foi
fundado em 1990.
Esse grupo
continua até
hoje seus
trabalhos, sendo
considerado o
centro mais
antigo do
Canadá. Nesse
período a
província de
Quebec
continuava sendo
a principal sede
do Espiritismo
no Canadá.
Entre 1995 e
2000, um outro
grupo espírita,
chamado Bezerra
de Menezes,
passou a
funcionar em
Montreal. Em
1998 um
quebecois
encontrou por
acaso O Livro
dos Espíritos e
entusiasmou-se
com a Doutrina
Espirita. Ele
criou então um
website com a
estrutura
proposta para
uma entidade
"federativa"
chamada
Movimento
Espirita
Quebequense –
MSQ, fundado em
2001 por
Stephane
Brullote.
A existência
desse website
permitiu que
outros espíritas
e simpatizantes
pudessem se
conhecer: o MSQ
saiu então do
papel. Uma das
pessoas que
"encontraram" o
MSQ (francofone
nascido na
província de
Saskatchewan,
mas morando em
Montreal) tinha
um espaço
disponível. Foi
então possível a
criação de um
grupo espirita (CEAK
- Centro
Espirita Allan
Kardec) com sede
própria, uma
biblioteca com
um bom acervo de
livros,
permitindo
também ao MSQ
reunir-se
mensalmente. O
MSQ foi então
estruturado com
membros dos
grupos
existentes.
Infelizmente,
algum tempo
depois, o CEAK
perdeu o espaço
físico que tinha
porque ele teve
de ser vendido.
Alguns membros
do CEAK
fundaram, então,
o Centre d'Études
Spirites
Fraternité em
2004, o qual
continua em
operação até
hoje, sendo 100%
de seus
trabalhos feitos
em francês.
Outros membros
formaram um
outro grupo, com
o nome de Centre
Spirite Justice,
Amour e Charité
(JAC), que
também é bem
ativo hoje.
Esses três
grupos de
Montreal são
todos membros
fundadores do
CSC – Conselho
Espírita do
Canadá.
Enquanto isso,
na cidade de
Toronto o Grupo
de Estudos
Joanna de
Ângelis (JASSG)
abre suas portas
ao público em
1996 e é, hoje,
o centro mais
antigo de
Toronto. Junto
com os grupos de
Montreal, o
JASSG também foi
um membro
fundador do CSC.
Dos
trabalhadores do
JASSG surgiram
três outros
grupos: o
Repouso do
Caminho na
cidade de
Toronto, que tem
suas portas
abertas, o
Christian
Spiritist Centre,
na cidade de
Mississauga,
operando em
inglês, e mais
recentemente o
TSS –
Sociedade
Espírita de
Toronto.
O Conselho
Espírita
Canadense surgiu
quando?
No dia 2 de
novembro de
2008, data em
que o CSC –
Canadian
Spiritist
Council
(Conselho
Espírita
Canadense) foi
oficialmente
fundado em
Toronto, com o
objetivo de
promover a
unificação
nacional do
Espiritismo e
promover e
realizar
atividades que
possibilitam a
troca de
experiências
entre seus
membros. Como
representação, o
CSC é membro
efetivo do CEI –
Conselho
Espírita
Internacional.
Como é no Canadá
a aceitação da
doutrina
espírita?
É ainda de
cautela e
curiosidade.
Sabemos que é
preciso investir
muito mais na
divulgação e
educação da
Doutrina aqui no
Canadá.
A preparação do
advento do mundo
de regeneração
em nosso planeta
já deu, como
sabemos, seus
primeiros
passos. Daqui a
quantos anos
você acredita
que a Terra
deixará de ser
um mundo de
expiação e de
provas, passando
plenamente à
condição de
mundo de
regeneração, em
que, segundo
Santo Agostinho,
a palavra amor
estará escrita
em todas as
frontes e uma
equidade
perfeita
regulará as
relações
sociais?
Como eu gostaria
de saber essa
resposta! O meu
desejo é que
fosse amanhã! A
vida em
sociedade é
necessária, pois
faz parte da Lei
que rege a
Natureza.
Precisamos um do
outro assim como
precisamos do ar
que respiramos.
Um dos
requisitos
básicos para o
convívio em
sociedade é o
respeito, que,
para ser
harmônico,
precisa existir
em clima de
fraternidade.
Quanto mais
buscamos a
iluminação
interior mais
expandimos nossa
capacidade de
amar,
apoiando-nos na
centelha Divina
que se encontra
em nossa
essência. Apenas
o amor tem a
capacidade de
regar e fazer
crescer essa
centelha.
Só quando formos
capazes de ver
nossos irmãos
com os olhos do
nosso coração
teremos na
fronte de cada
um de nós o
rosto de Jesus e
a palavra AMOR.
Nesse momento as
relações sociais
serão um
constante
encontro com o
Divino, pois o
Divino em mim se
encontra com o
Divino em ti.
Em face dos
problemas que a
sociedade
terrena está
enfrentando,
qual deve ser a
prioridade
máxima dos que
dirigem
atualmente o
movimento
espírita no
mundo?
É simples:
promover o amor
e o bem entre
todos os
Espíritos
encarnados.
O que o
Espiritismo
representa para
você? Qual a
importância que
ele tem na sua
vida?
Posso dizer que
o Espiritismo é
a bússola que me
leva ao encontro
de Deus e do meu
encontro comigo
mesma. Às vezes
não gosto muito
do que encontro,
mas são essas
experiências que
me ajudam a
crescer e a
superar minhas
limitações.
São as obras de
Kardec e de
muitos que
vieram depois
que me ajudam na
minha busca
incessante de
plenitude de
consciência e
que facilita o
meu processo de
entendimento nos
relacionamentos
humanos.
É nessa união
com os
ensinamentos
espíritas que me
enxergo como
sou, nem mais
nem menos,
simplesmente eu
mesma, sem
ruídos, sem
máscaras, com a
confiança de que
sou FILHA DELE e
como tanto sou
AMADA. A visão
dos ensinamentos
de Jesus à luz
do Espiritismo é
brilhante,
revigorante,
orgânica e em
constante
evolução.